Na Teogonia, Hesíodo mostra como a Terra, Gaia (Γαῖα), é a grande-mãe do cosmos, porque dela deriva toda a procriação. Ela pare o céu, que já nasce constelado, assim como pare o mar e as montanhas. Desses partos, provêm o ar, o fogo, a água e a terra. Dela ainda nascem os deuses, a vida e os homens. Conforme já afirmamos, em outra ocasião, na cosmogonia de Hesíodo, porque a Teogonia, assim pode ser chamada, não foram os deuses que criaram a Terra e a vida, mas a Terra, como deusa-mãe, que gerou os deuses e toda a vida, que se conhece.
A sua grande importância para vida reside no fato de que as plantas captam, com suas folhas funcionando como painéis solares, de estrutura o mais plana possível, os preciosos fótons que a nossa estrela nos envia, maximizando-os e operando a fotossíntese, que permite a sua alimentação e a produção de oxigênio, de que os seres animais dependem.
Seja qual for a data em que as plantas chegaram à terra firme, elas o fizeram antes dos animais. A vida nasceu na água, mas precisou conquistar a terra firme para se expandir e se consolidar. Esse movimento antecipado das plantas em direção à terra “é quase óbvio”, diz Dawkins, tendo em vista que “sem plantas para comer, de que adiantaria um animal ir para lá?” (p. 585).
Afrodite é, portanto, a primeira divindade que habitará entre os futuros mortais, cuja procedência está relacionada com Gaia. A deusa, em primeiro lugar atinge a ilha de Citera, de onde o seu epíteto Citereia; em seguida, ela chega à ilha de Chipre, ambas no mar Egeu, recebendo daí o epíteto de Cípria.
A descrição de Hesíodo é de uma importância literalmente vital. Em toda a literatura clássica, não há um trecho que possa ser de tão grande relevância para a criação da vida quanto os versos 194-195 da Teogonia:
ἐκ δ’ ἔβη αἰδοίη καλὴ θεός, ἀμφὶ δὲ ποίη
ποσσὶν ὑπὸ ῥαδινοῖσιν ἀέξετο.
e saiu a bela divindade veneranda, e ao redor a relva
crescia sob os seus delicados pés.
Façamos um encontro agora do que diz Dawkins com o que diz Hesíodo. Um cientista evolucionista, dos nossos tempos modernos, e um poeta cosmogônico, dos tempos arcaicos gregos, com uma distância de 2800 anos de um para o outro, juntam-se para nos revelar a beleza existente entre a descrição da ciência e a imaginação da poesia.
Como não ver a óbvia relação do verbo crescer (ἀέξω), em grego, com a capacidade de espalhar-se das plantas, de modo a captar o maior número possível de fótons? Por outro lado, o termo que traduzimos como “delicados”, determinando os pés da deusa, também pode ser traduzido como ágeis, rápidos e esbeltos. Há quem traduza o último verso – ποσσὶν ὑπὸ ῥαδινοῖσιν ἀέξετο – por “crescia sob esbeltos pés”. Preferimos a tradução que demos, não por duvidar que a deusa tivesse pés esbeltos, mas pela delicadeza e agilidade dos seus pés, sob os quais a relva cresce e se expande, de acordo com a natureza própria das plantas. Como deusa do amor erótico, que proporciona a criação e uma deusa, sobretudo, que faz surgir a primavera, Afrodite é ágil e delicada, pois uma coisa pressupõe a outra, em criar a vida na terra, assim que sai do mar.