“Tudo vale a pena quando
a alma não é pequena”
Fernando Pessoa
Foi no "Bar e Restaurante do Damião", em Alagoa Grande, num dia nebuloso, que ouvi a sutileza de uma sinfonia de sapos e pererecas, sublinhada pelo canto dos grilos, coadjuvantes da noite de um dia frio.
Do lado, um terreno encharcado pelas águas da chuva, o seu gramado saturado pela umidade. Era inverno. E foi imenso! Parecia estar numa lua, (na verdade, de mundos distantes ou no mundo da lua), flutuando no passado, estando no presente na terra de Jackson; Osório Paes, poeta de “Oh! Palidez”, música cantada pelo parceiro e intérprete J. Monteiro e pelo
Alagoa Grande, dentre outras coisas, tomada por uma mitologia popularesca, era conhecida (e ainda é), como “a cidade onde os sapos não cantam”. É que um dia, conta a lenda: Frei Damião, em frente da igreja matriz, "ordenou" que os sapos da "Lagoa do Paó" parassem de cantar, quando fazia o seu sermão pra centenas de fiéis. No entanto, ninguém o viu delegando essa ordem aos batráquios, nem tampouco daria pra os sapos ouvirem, lá na lagoa, as suas ordens e balançarem as suas cabeças sob seus poderes eclesiásticos. Apesar de ser um missionário temido por todos, e seus milagres e ensinamentos sacrossantos cumpridos e respeitados, as suas ordens dirigidas dessa vez aos sapos não foram cumpridas pelos próprios.
No entanto, até hoje, o fato ficou como crença que os fiéis do catolicismo quiseram levar a cabo, mesmo escondendo e turvando na fé um ledo engano...
- Ou foi a perseverança de um certo mito impregnado pelas fantasias da memória cristã? – poderia alguém ter perguntado.
- Pode ter sido.
Mas, de onde eu estava, configurei o Frei Damião, do céu, liberando o seu xará Damião, da terra, dono daquele bar e restaurante, para abrir as comportas de uma megarreminiscência sápida, para que eu, conterrâneo saudoso de tantos invernos, ouvisse, em silêncio, um opus extasiante que marcou uma noite superinesquecível e, inacreditavelmente, líquida e de emoção.
Gravei o concerto daquelas horas. O meu celular foi cúmplice daquele momento mágico, solidário à minha empatia com as mesmas melodias do passado. E, enfim, reproduzi na memória tudo aquilo que já estava adormecido, descansado, mas impregnado e, indisfarçadamente, grudado no sensório, no subconsciente, na alma de antigamente. E como foi bom senti-la de novo!