Em vez de pensar a morte nos lembremos da vida. E em seu início…
Há um estreito território formado de três ou quatro ruas, que vou te contar! Certamente passadas todas por mudanças, pois são muitas as sucessões e vários os negócios, mas seguras e firmes em seus nomes e mais sólidas ainda no recôndito de cada um dos que passaram por lá. Em mim, sobretudo.
Estou entre quatorze e quinze anos, venho descendo a rua achando que valeu a pena ter deixado meu último tostão na sorveteria Macaíba da Maciel Pinheiro, e dou com o olhar no velho José Carlos - o pai - encostado à porta ainda estreita do antigo Café São Braz, na Simeão Leal. De boa altura, rosto graúdo, e que se sente olhado pelo amatutado moço que passa. A porta não é larga como veio ficar depois, aberta pelo filho para todo o Nordeste, e ele está como pessoa a mais comum, em mangas de camisa, encostado a uma das ombreiras.
De tudo isso eu me lembro, o sol da tarde ainda brilhando aceso por cima dos telheiros da Cardoso Vieira, rua que cruzava e continua cruzando para nos levar onde hoje é o Calçadão, e que aqui não dá para dizer o que era, tanta coisa era.
E mais me lembro – razão de toda essa prosa – daquele ar de riso apenas esboçado, quando muito, concessivo. Haverá coisa mais fugidia?
Pois bem, ao saber pela tevê, agora, da morte do filho, veio-me rápido e tão claro quanto a luz do sol de 1948 ou 47, aquele instante do pai e, para mim, da vida toda e de nós todos, com as naturais diferenças dos destinos tomados.
Certas vezes, um instante é tudo. José Carlos da Silva Júnior, símbolo do espírito empresarial de sua terra, ex-governador, ex-senador, com um nome muito além da pequena e remota Semeão Leal, avulta acomodando as mais vistosas dimensões na pérola desse instante.
Agora vem Juarez Farias pelo mesmo caminho e diferentes estações e instantes.
Enquanto não murcham as flores que nos representaram em sua despedida, respiremos um pouco.