A propósito das paineiras da Avenida Orozimbo Maia, onde morei por uns tempos — Campinas, interior de São Paulo.
Há certas tragédias da vida que sempre exerceram sobre mim um inexplicável fascínio. Não é de quaisquer mazelas cotidianas que me refiro. É dos desafortunados que se deixam morrer de amor que estou falando. Deixar a vida a esse preço sempre me pareceu trágico e esplendoroso.
Noutro dia, há quatro ou cinco desta data, estive relendo algumas entrevistas d'O PASQUIM, aquele semanário que, nos “anos de chumbo”, irritava os generais no poder e trazia momentos de euforia àqueles que acreditavam “nas flores vencendo o canhão” e mesmo aos que achavam mais conveniente acreditar no canhão vencendo o canhão.
Contava Florinda do pai dela quando moravam no Acre:
Papai saiu um dia e viu um sujeito sentado à beira do rio. E disse: o que é que você está fazendo aí, caboclo? Aí o caboclo disse: Eu estou aqui, seu Bulcão, porque minha mulher me deixou. Acabou de tomar um barco e foi pra Manaus com outro sujeito. O meu pai disse: você é um homem, você tem que reagir. Aí ele disse: não seu Bulcão, quando a gente ama a gente não reage. E ficou sentado. Papai foi embora e depois ficou sabendo que o sujeito tinha morrido sentado naquele lugar. Então papai fez uma poesia que se chamava Amor. Começava assim:
Amor que se despedaça e que devora E as próprias carnes rindo dilacera Amor que tem ímpetos de fera, E a covardia que se humilha e chora. Amor é enfim que só de amor se ufana, Veneno n’alma, incêndio nas artérias. É a excelsa glória da fraqueza humana.
Pode ser em Verona ou no Acre, há sempre alguém para se deixar morrer ou até matar por esses sentimentos. Daqui mesmo posso ver essa tragédia se consumando diante dos meus olhos. E vejo todos os dias da minha janela a agonia delas se deixando morrer. De amor!Amor que se despedaça e que devora E as próprias carnes rindo dilacera Amor que tem ímpetos de fera, E a covardia que se humilha e chora. Amor é enfim que só de amor se ufana, Veneno n’alma, incêndio nas artérias. É a excelsa glória da fraqueza humana.
Com as primeiras chuvas, algumas dessas árvores vão convalescendo. Ganham folhas tímidas e tenras, mas vão se recuperando, ganhando forças para participar de mais um ciclo mágico da vida, de mais uma esplendorosa história de amor. Outras não têm a mesma sorte e já não conseguem arrancar das entranhas da terra remédio capaz de devolvê-las à vida. Não conseguem reagir. Vão morrer. Seus cadáveres ficarão por algum tempo desafiando a paisagem até que um dragão de ferro venha comer sua lenha apodrecida.
Por aquelas árvores que sei, tomaram a mesma decisão daquele caboclo no trapiche, fica aqui meu tributo. Elas certamente amaram mais do que as outras... Amor, daquele amor que tem ímpetos de fera e a covardia que se humilha e chora. E vão morrer. Porque quem ama assim não reage.
Escrito na madrugada de 11 de setembro de 2001. Aquele dia trágico.