Peço a Deus que Ele não permita que o destino me leve a morar em um apartamento de condomínio. Com todo o respeito aos que moram em edifícios e a centenas de pessoas que já se acostumaram e se adaptaram a esse tipo de moradia.
De forma extremamente particular, eu não me acostumaria a ter que diminuir a prazerosa sensação de sentir-me mero sobrevivente desse espaço, magnetizado pelas deliciosas visões míticas do pé no chão, a conviver, ao mesmo tempo, com as relações telúricas de um quintal e as dependências naturais dos cantos de uma casa que permite, muitas vezes, uma sensação de estesia e de prazer.
Alguns moradores relutam, insistem, mas são forçados a cumprir as instruções do síndico do edifício. Nada podem fazer, senão aceitar as regras daquela moradia, muitas vezes, rígidas e exaustivas.
Outros são vítimas do torpor de estranhas vizinhanças, como também das neuroses impregnadas em suas brancas e vigilantes parede-meia.
Em alguns edifícios existem normas que só permitem ligar liquidificador após as sete e meia da manhã. Reclama-se da inofensibilidade dos pequenos ruídos, dos barulhos frugais, ao tempo em que dão apoio às frescuras mais absurdas que só desenvolvem um clima de medo e de cuidados que terminam virando ideias fixas ou outros transtornos de pior gravidade.
E, aí, o ritmo da cotidianidade termina correndo o risco de danificar a boa convivência de cada sobrevivente desses arranha-céus. Deste modo, vemos que certas leis de condomínios, criadas pelo homem, são provas incontestes de uma competente ignorância e grandiosa frivolidade.
Não somente somos meros habitantes deste planeta, como também gente desses territórios que pode ainda se alegrar e animar a vida enquanto for possível enxergar uma aurora e respirar o oxigênio das paixões pela vida nem que essas sejam simples elucubrações. Não se pode é ser mais tolhido por procedimentos tidos como rijos, metodologistas, autoritaristas e estupidamente radicais. Assim, quem vai ter sempre vez é a prepotência com toda a sua insensibilidade, essas que campeiam e invadem esses lugares onde é difícil existir e viver.
Sabe-se apenas que a pessoa incomodada mora em Manaíra, numa rua cujo nome desconheço, número eu não sei, num edifício que eu não conheço, apartamento 302, aqui neste planeta.
Que as normas padronizadas, formais nunca afetem a ordem da liberdade mínima de uma tênue normalidade.