“Quem não gosta caia fora, escolha os livros que vão para a casa de campo ou para a ilha deserta. Com Carnaval não se brinca. Quem gosta já escolheu fantasia, escola para desfilar, ligou para os amigos do bloco, já sabe de cor o samba-enredo. Quem gosta nasceu assim, nem desgosto vai mudar."
Rosiska Darcy de Oliveira, "Carnavalescas", em A natureza do escorpião
Rosiska Darcy de Oliveira, "Carnavalescas", em A natureza do escorpião
Tomei emprestado o título da crônica de Rosiska Darcy de Oliveira — Carnavalescas — devido à minha identificação com seu relato do espírito do carnaval. Gosto também da definição dada por ela no artigo “O carnaval é uma festa virtuosa” publicado no jornal Estado de São Paulo:
“O carnaval tem a má fama de ser a festa da luxúria. Não é, ou é, no que a luxúria tem de mais sagrado. O carnaval é uma forma de meditação pelo avesso, uma afirmação do sagrado pelo que há de mais profano...pela nudez que nos impele ao desejo, pelo desejo que acena com a alegria, pela música que batuca no coração, pela liberdade de pular e rebolar sem que ninguém censure.”
Passei anos sem brincar, mas com aquela angústia de ver minhas irmãs se esbaldando na festa do Momo. Tive também o tempo de afastamento voluntário do carnaval, pois as pessoas ao meu redor não gostavam. Era o tempo dos acampamentos. Nessa época foi muito bom descobrir outras formas de vivenciar os quatro dias de suspensão. No final da década de 70, tivemos temporadas em Baía Formosa, nas casas de Glauce Caldas, Guilherme Faulhaber, Décio (que saudade!) e Yeda Moura, Marcone Serpa, Bitu. E viva Dona Regina e Dona Vandete, as primeiras-damas da bela enseada potiguar...
Passaram-se os anos e recuperei o tempo perdido com o carnaval de Olinda . As ladeiras, os blocos “Eu Acho é Pouco”, “Siri na Lata” e toda a turma do Funil... o "Maracatu Rural", cujo som poderoso fazia com que me arrepiasse a cada chocalho. A festa da histórica e linda cidade pernambucana representou, para mim, a volta ao prazer de brincar, de me pintar e de sair atrás do bloco, dos bonecos gigantes e das marchinhas em ruas estreitas, mamulengando pelos quatro cantos de Alceu Valença.
Foi um luxo ver, nas madrugadas de anos atrás, o show de Alceu Valença e sua Morena Tropicana , além da guitarra endiabrada de Moraes Moreira. A folia também teve a participação de Diana Miranda (um espetáculo de Índia Tabajara) e de Chico César, com a magia de Mama África e todo o repertório especial a la Catolé. No percurso, encontrei de tudo: amigos, colegas, anônimos, bêbados e equilibristas.
No início do Folia de Rua, eu era bem serelepe. Saía na Abertura do batuque, nas Piabas, nas Virgens, Muriçocas e Cafuçu. Depois, as pernas já não acompanhavam mais o frisson da cidade e fui estreitando minhas expectativas. Hoje fico reduzida às picadas do inseto e à irreverência do bloco Cafuçu. Fico impressionada ao pensar que, a partir dos versos de alguns poucos, a folia da capital paraibana inflamou-se e cresceu vertiginosamente, ao ponto de termos blocos pipocando a cada esquina — em tempos normais. É emocionante ver a cidade pulsando aos tambores, a alegria do paraibano e o folião se fantasiando para brincar essa festa tão gigantesca, democrática e misteriosa, como disse Rosiska no Estadão:
“O carnaval é sobretudo um grande mistério, uma gigantesca máscara que encobre o rosto trágico dessa nação alegre, colorida de paetês verdes e amarelos, o rosto trágico do Brasil”.
Numa certa “quarta feira de fogo”, ao ser entrevistada, o repórter me perguntou o que ainda me emocionava nas Muriçocas, e respondi: a saída do bloco, os fogos, o trio, e principalmente a multidão anônima, esfuziante e embriagada de alegria. Gostaria de ter dito as palavras de Rosiska sobre o carnaval como festa virtuosa:

Ninguém ouve o silêncio do carnaval, nem reconhece seus rituais ancestrais, arrastados pelos séculos, trocando de fantasia em cada cultura, esses rituais de uma festa dita pagã em que deuses múltiplos insistem em desfilar, cada um certo da sua onipotência, da liberdade infinita que é ser qualquer coisa, qualquer um, second life em carne e osso, muito mais arrojada, provocante e arriscada que qualquer aventura virtual.”
Um carnaval com “meditação, sabedoria e silêncio”, aproveitando a solidão amorosa, da qual — espero — os foliões tenham sabido tirar proveito.