Em 1851, realizou-se no Hyde Park, em Londres, a “Great Exhibition of the Works of the Industry of All Nations” ou a “Grande Exposição Mundial”, como ficou conhecida. Foi o primeiro evento internacional que reuniu, em uma grande feira, produtos manufaturados dos países participantes. Em intervalos anuais, nem sempre regulares, seguiram-se Exposições Mundiais em diversos locais. No Brasil, a Exposição só viria a acontecer em 1922, no Rio de Janeiro, durante as comemorações do centenário da nossa Independência.
O general Souza Aguiar, que já havia projetado as instalações brasileiras na Exposição realizada em Chicago, em 1893, planejou para a feira de Saint Louis um pavilhão com uma estrutura inteiramente metálica. O projeto foi muito elogiado na Exposição, como se vê em matéria do jornal “St. Louis Republic”, traduzida e publicada no “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro.
“É a Pérola no Diadema dos Edifícios Estrangeiros: Assim se expressou um arquiteto fitando o pavilhão do governo do Brasil na Exposição; não sendo contestado, com estas palavras fechou o assunto: É realmente considerado o mais belo dos edifícios construídos pelos países estrangeiros”.
Batizado com o nome de Palácio Monroe, em homenagem ao presidente norte-americano James Monroe, a edificação tornou-se um dos cartões-postais da cidade. Foi utilizada pelo governo em várias funções e sediou, provisoriamente, a Câmara dos Deputados. Em maio de 1925, passou a ser a sede do Senado Federal, até a mudança da instituição para Brasília, em 1960.
“Os nossos discursos, os debates calorosos, os pequenos incidentes, o rumor dos nossos passos subindo e descendo os degraus deste recinto, este teto sóbrio e nobre, estas colunas romanas, a agitação dos taquígrafos, a curiosidade indiscreta dos jornalistas e o ruído dos tímpanos, tudo que lembrarmos transmuda-se em saudades tão intensas que nos levam a dizer que esta casa, ao cerrar as suas portas, guardará também alguma coisa de nossa própria vida”.
O Monroe, a partir daí, funcionou como uma representação do Senado no Rio, o “Senadinho”, e abrigou órgãos do Governo Federal. Em 1976, em uma polêmica decisão, foi determinada a demolição do edifício. O Palácio, um dos ícones do Rio, laureado com prêmio internacional de arquitetura, que foi sede da Câmara dos Deputados e, durante trinta e cinco anos, do Senado Federal, findou seus dias ingloriamente, como descreve notícia publicada em 10 de fevereiro de 1976, na Tribuna da Imprensa:
“Monroe está caindo — O Palácio Monroe está cedendo à ação do vaivém da picareta. Agora, sob seus escombros, onde se acumulam toneladas de mármore de Carrara e de bronze suíço, jazem páginas gloriosas do esforço de muitos brasileiros para solidificar o Poder Legislativo do País, como instituição. Por entre as árvores que ainda restam do antigo jardim do Palácio, instalou-se uma movimentada feira-livre de antiguidades, com colecionadores disputando, a preços de ouro, anjos, leões, portas, janelas, colunas, vidros e outros ornamentos que faziam, da quase secular sede do Senado, um dos prédios mais nobres da antiga Capital Federal”
No plenário do antigo Senado Federal, no Palácio Monroe, tomaram assento figuras destacadas da política brasileira no século passado, como João Mangabeira, Luís Carlos Prestes, Gilberto Amado, Flores da Cunha, Roberto Simonsen, Paulo de Frontin, os paraibanos José Américo de Almeida e Epitácio Pessoa e tantos outros.
O Palácio Monroe integrava os bens patrimoniais da União e o processo da sua demolição — que decorreu de uma decisão autoritária de um governo antidemocrático, sem que fossem considerados os pareceres das entidades e órgãos envolvidos com a preservação do patrimônio histórico nacional — dá uma ideia perfeita do descaso com que é tratado o acervo cultural do país. A ordem de demolição foi emitida pelo general Ernesto Geisel, por meio de um decreto que nunca foi publicado, mas que se efetivou por um simples memorando do general Golbery do Couto e Silva, que era uma espécie de condestável do governo militar da época.
Embora o empreiteiro contratado estivesse mais interessado na venda da estrutura metálica do prédio do que nas peças ornamentais existentes no edifício, ele obteve 200 mil cruzeiros apenas com a venda de duas das quatro esculturas de leões que ficavam nas entradas do Palácio Monroe (valor informado pelo próprio comprador das esculturas ao jornal “O Globo”). Este valor superava o valor global (191 mil) que o empreiteiro teria que transferir ao governo federal pela demolição. Estimativas indicam que, apenas com a transação do material da estrutura metálica, o contratado teria obtido nove milhões de cruzeiros, quase 50 vezes o valor total da contratação da demolição.
Muito mais do que qualquer análise do aspecto financeiro da contratação dos serviços, o que deve ser ressaltado é o desprezo das autoridades governamentais com bens tão relevantes para a história nacional. O triste fim do Palácio Monroe pode ser descrito pelo destino que tiveram várias peças do prédio, dentre elas as quatro imponentes esculturas de leões que ornamentavam as entradas do edifício.
Quando da demolição do edifício, um fazendeiro de Minas Gerais que ia passando pelo local resolveu comprar as quatro esculturas dos leões para colocar na sua fazenda em Uberaba. Depois de um tempo de posse das peças, se desfez de duas delas, certamente vendendo-as com um ágio atraente. Felizmente, essas duas esculturas que não permaneceram na propriedade rural no interior de Minas Gerais encontram-se, atualmente, no Instituto Ricardo Brennand, no Recife.
Também sobreviveu ao desmanche do Palácio Monroe o busto de Ruy Barbosa, que, atualmente, está colocado, no plenário do Senado Federal, por trás da mesa diretora. A se considerar o nível intelectual que ostenta a quase totalidade dos atuais senadores que têm assento naquela casa legislativa, o grande tribuno e civilista baiano, cultor da língua portuguesa castiça, talvez preferisse que o seu busto estivesse muito longe daquele ambiente.