Em fins dos anos 1970, o jornalista e escritor José Castello conseguiu agendar uma entrevista com Vinicius de Moraes, que então estreava um show no Rio de Janeiro. O jornalista não era ainda o consagrado biógrafo do poeta e compositor, condição que só alcançaria mais de uma década depois da citada entrevista, mas naquele encontro frustrante já detectou no entrevistado claros sinais de um tormento existencial que contrastava abertamente com a imagem pública do autor de canções leves como “Garota de Ipanema”.
Continua Castello: “Ainda hoje, dezesseis anos depois de publicá-la, a figura desse Vinicius atormentado e em descompasso com o mundo me incomoda”. E segue: “... Custo a admitir, mas a vida de Vinicius de Moraes foi uma linha irregular, em que os grandes momentos de prazer e euforia se revezaram com descidas íngremes rumo à tristeza e ao desamparo. Os médicos de hoje, provavelmente, o rotulariam de ‘bipolar’. Para além de qualquer diagnóstico, Vinícius foi, sim, um homem de alma duplicada. A paixão pela vida tinha, como avesso, íngremes descidas ao inferno”.
Interessante é que a causa desse “distúrbio” é até agora desconhecida pela ciência. O que talvez seja a prova de que é algo real e absolutamente constitutivo de nossa natureza física e psíquica, a tal ponto que não dá para se identificar a sua origem, ou seja, é possível que faça parte de nós desde sempre, assim como o temor aos trovões. E seria mesmo um “distúrbio”, salvo em casos extremos, a simples alteração de humor, a compreensível alternância entre uma certa euforia e uma certa depressão?
Mas voltemos a Vinícius, poeta do amor, homem que viveu na carne e na alma as vibrações e as dores das paixões avassaladoras, que casou-se oficialmente nove vezes e enamorou-se vezes sem conta. Como poderia ter escrito seus poemas e suas canções sem ter bebido, com frequência, do cálice amargo do pesar e do abatimento? Fosse ele sempre alegrinho, sempre risonho, sempre feliz, tê-lo-ia feito? Duvido. Os muito felizes e “normais” nunca produziram nada de relevante. Aliás, desconfio mesmo que os muito felizes são quase sempre idiotas consumados.
Seja-me, portanto, permitido concluir, para espanto de alguns, talvez, que só quem é normal é “bipolar”. Ou seja, dito de outro modo, quem não é “bipolar” é que é a exceção surpreendente. E que Deus me (nos) proteja de uma suposta normalidade rasa, tola e, sobretudo, estéril.