Há alguns anos, tive contato com um livro que me fascinou: "O lugar do escritor", de Eder Chiodetto (ed. Cosac Naify, 2002). Um livro de arte, com fotos lindas, sobre as casas de escritores, suas ideias e, principalmente, sobre o lugar de sua produção literária e o processo da escrita. Nele, Adélia Prado, revela:
“Escrevo à mão, em cadernos, não importa em que lugar da casa. É o meu kit poesia. Sempre carrego o caderno para registrar um episódio, um acontecimento que tenha natureza poético-literária”
No livro, o filósofo da contemporaneidade passeia por exotismos, pelo campo e cidade, pelo sublime, pela arte, beleza, hábitos, e lugares como Caribe, Londres, Lake District, Amsterdã, Madri, Provença. Reflete sobre trens, aviões, postos de gasolina e dialoga com Edward Hopper, Baudelaire, Flaubert, Wordsworth, Van Gogh, entre outros grandes artistas.
Foi no capítulo sobre o Lake District e a casa de William Wordsworth que me veio o assunto para esta crônica. O autor (de Botton) fala dessa área litorânea ao norte da Inglaterra não sem antes mencionar sua partida da Estação de Euston, em Londres, de onde também embarquei para alguns destinos, inclusive para a citada região.
Estive no Lake District em março de 1987. Deveria já ser primavera, com seus prenúncios e narcisos (daffodils), mas nevava muito e os lagos e as montanhas mais pareciam a Suiça, com turistas fazendo caminhadas. Hospedei-me nos arredores do Lago de Windermere, onde ficam os lugarejos de Grasmere e Ambleside, sonhando em visitar uma certa casa em Dove Cottage, uma modesta casa de pedra, onde viveu o poeta romântico inglês William Wordsworth (1770—1850).
"Pois com frequência, quando no divã me deito Com a mente vazia ou pensativa, Eles brilham para o olhar interior [...] E então meu coração se enche de júbilo, E dança com os Narcisos.”
A Montanha — à distância — É Âmbar — um véu — Perto — dispersa-se — a ânsia – E Isto é — o Céu —
Emily Dickinson
Não tão longe do Lake District, também conheci, em outra ocasião, o lugar onde nasceu um outro escritor inglês: Charles Dickens. Na época eu não tinha Great Expectations sobre ele, mas David Copperfield veio brincar em minhas memórias.
O lugar onde nasceu o poeta galês Dylan Thomas, em Swansea. Esse fiquei a contemplar mais um pouco. Um terraço; um tinteiro; e o reflexo do que poetizou. Também não era tão familiarizada com sua poesia, mas vi de perto a magia do seu espaço de criação. Só depois, ao ver o filme Amor Extremo (The Edge of Love, 2008, direção de John Maybury) fiquei mais conhecedora de sua vida e obra.
Visitei o busto de Virginia Woolf na Praça Tavistock, no coração de Bloomsbury, bairro londrino que é o símbolo do grupo de intelectuais a que pertencia a escritora. Um grupo de escrita, transgressões, ideias e de todo um movimento estético que teria sido propagado por Beaudelaire, na França. A casa de Virginia, que ficava na praça, foi bombardeada durante a II Guerra. Mas a praça está lá! Verdejante e plácida, com uma pequena homenagem e um canto todo dela. "A casa de Carlyle", só em livro. E tantas outras das suas casas (representadas em seu romance, Rumo ao Farol) na região da Cornualha — onde pude apreciar gaivotas, paisagens e chás!
No final dos anos 70, num inverno rigoroso nos Estados Unidos, passei pela região da Nova Inglaterra, nos arredores da cidadezinha de Amherst. Mas, enclausurada a uma temperatura de 25 abaixo de zero, não pude descer para "fazer um visita" a Emily Dickinson. Com casacos emprestados, numa noite em tempestade e literalmente de ventos uivantes, eu não teria como recitar em voz alta, algum dos seus mais de mil versos. Mas pensei alto: “Beleza — não tem causa — É —“. No silêncio gelado, recitei baixinho:
“Não sou ninguém! Quem é você? Ninguém – Também? Então somos um par? Não conte! podem espalhar!.”
Mas... uma vergonha da minha parte: nunca fui ver o lugar de Augusto dos Anjos, em Sapé. Portanto, ainda não sentei embaixo do seu pé de Tamarindo, para poder desvendar os meus próprios Eus. Tinha o meu próprio pé no jardim quando morava em casa, onde os meus Eus se perdiam, se achavam, mas nunca se tornaram poesia... É sempre assim, o que é de casa, deixamos sempre para depois. Espeto de ferro, espeto de pau!
Visitar a morada de um artista é buscar e viver a poética de seu espaço. É desejar ficar perto dos vestígios ali vividos. É quase atravessar o tempo. Como dizia Bachelard:
“Toda pessoa deveria então falar de suas estradas, de suas encruzilhadas, de seus bancos. Toda pessoa deveria fazer o cadastro de seus campos perdidos.”
“Para quem sabe escutá-la, a casa do passado não é uma geometria dos ecos?”
E assim, de casa em casa, de paisagem em paisagem, fui visitando artistas, suas obras, suas memórias imaginando que: “quando a casa é feliz, a fumaça brinca delicadamente acima do telhado".