Como é curto o tempo da inocência. E ficará cada vez mais difícil ser surpreendido por uma criança em um momento de lampejo poético, algo apenas possível aos que começam a descobrir a linguagem. São tantas informações, imagens, mídias, que cada vez mais precocemente o vocabulário da criança é enriquecido, e isso ocorre na mesma velocidade em que se embota a espontaneidade – a inocência.
Subitamente uma criança diz algo, um simples comentário, tão inusitado e simples. Mas são estes os pequenos cristais capazes de revestir nossos dias com um pouco da beleza do infinito.
Esse tipo de situação foi feita para ser passada como fizeram nossos avós – no boca à boca mesmo.
Quando diz isso, a criança não está sendo espirituosa, não é um chiste, ela está sendo autêntica e descrevendo uma experiência emocional. Isso é divinamente primitivo.
Foi o que aprendi com minha filha em uma manhã ensolarada de domingo. Ela acordou, coçou os olhinhos, olhou para a porta e disse: “A porta está amarela!” Uma porta, fenestras, claridade...Não foi isso o que viu aquela borboletinha de cachos dourados...
Ela surpreendeu o dia com sua visão multifacetada.
A criança sabe olhar com a imaginação; vislumbra o vôo sob o Sol da manhã. E, quando chegou a noite, ela recostou-se em mim e sussurrou manhosa: “ Pai, meus olhos estão encharcados de sono ...”.