Em um dos episódios de The Crown, o líder do Trabalhistas e ex-primeiro-ministro Clement Attlee recebe a visita de um funcionário que trabalha para o primeiro-ministro Winston Churchill, seu algoz nas últimas eleições. O funcionário é portador de uma correspondência do serviço de meteorologia, prevendo um efeito climático desastroso sobre Londres, para os próximos dias. Embora seja uma mensagem importante, ela não se encontra entre aquelas que sejam lidas pelo primeiro-ministro.
A visita do funcionário causa estranheza ao líder trabalhista, pois ele traz consigo também outras informações sigilosas, concernentes ao clima, que comprometem o governo estabelecido. A notícia era uma bomba que poderia ser usada contra Winston Churchill, para a oposição conseguir um voto de desconfiança no Parlamento e, assim, derrubar o gabinete ministerial.
Os desdobramentos não interessam. O que nos interessa é ver o aproveitamento do início do Livro II da Eneida, numa série televisa sobre a política moderna e as suas lutas intestinas. O funcionário de Downing Street representaria o que o grego Sínon faz na Eneida: um espião que se faz passar por desertor, por ser perseguido por Ulisses, mas que, na realidade, tem a missão de convencer os Troianos a colocar o cavalo de madeira para dentro da cidade de Troia. Convencê-los de que o cavalo é a sua salvação, pois, deixado como presente para a deusa Palas Atena, se fosse dali removido, os Gregos, que fingiram partir, não teriam como retornar a Troia e a guerra estaria definitivamente acabada.
Diante de tanta celeuma sobre o ensino de obras clássicas para adolescentes, a utilização do clássico numa série de televisão, fato recorrente, dá uma lição aos desavisados a respeito da força e da perenidade de uma obra como a Eneida. Quem acha os clássicos chatos passará em brancas nuvens diante da cena aqui sumarizada, por não entender a alusão a uma suposta traição e, mais do que isso, as desconfianças que devemos ter quando diante de presentes magníficos cujo presenteador, aparentemente, não quer nada em troca. O criador do episódio soube captar o sentido da frase sintética do latim, claramente compreensível para um falante-ouvinte nativo culto da época da Eneida, mas que foi complicada para nós em traduções pífias, que não conseguem atingir a sutileza do seu significado. No que Laocoonte diz há duas informações. Uma é geral – Eu temo os gregos –, a outra é específica, restritiva – também temo os gregos que trazem presentes. Se o temor aos gregos é absoluto e inquestionável, o temor ao que traz presente é maior ainda, por ser atitude insidiosa.
Assim é na política. O temor não se deve restringir ao governo de modo absoluto, mas sobretudo a quem, no governo, leva presentes ao adversário, sem que este tenha solicitado. Em política, não há presentes sem contrapartida, estamos cansados de saber. Em suma, o criador do episódio não só captou a essência da frase latina, mas atualizou-a para o mundo moderno. No caso específico da série, a traição do funcionário do governo é verdadeira, mas, diante da ação de Churchill contra o denso nevoeiro, que promove o caos e mortes na cidade, a informação, se tivesse sido usada, ainda que verdadeira, teria se transformado em um cavalo de Troia para os trabalhistas, pois Churchill sai da situação como grande líder e suas ações resultam na lei de pureza do ar, promulgada em 1956.
A função do professor é ser orientador de seus alunos, apresentando-lhes um caminho que eles devem percorrer. Ele deve ser um mediador entre o conhecimento que apresenta e o público a que este conhecimento se destina. Para tanto, como professor de literatura, ele deve ser o primeiro a se envolver com a leitura que ele recomenda.
Um professor de literatura que reclama da dificuldade dos clássicos e faz disso uma desculpa para não passar a sua leitura aos alunos, é igual ao filósofo que reclama da dificuldade de ler Platão e por isso o ignora. Claro que todos têm direito a uma opinião, mas opinião é diferente de conhecimento. Platão já estabeleceu isso, há 2500 anos. A opinião carece de técnica de exposição, de conhecimento de causa e de argumentação, que são o lastro do conhecimento. Admito de qualquer um a opinião de que os clássicos são um “saco” e que não devem ser levados a adolescentes. Admito e passo ao largo, não perdendo o meu tempo com quem pensa assim. De um professor de literatura, no entanto, isso é inconcebível. Leitura é hábito que se adquire com paciência e com meticulosidade. Não há atalhos.
Concordo com Italo Calvino, quando em sua grande obra Por que ler os Clássicos afirma, depois de 14 argumentos expondo os motivos por que os clássicos devem ser lidos – modelo, atemporalidade, revisitação frequente, memória cultural, perenidade – ele escolhe como única razão o seguinte: ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos. Mais: o clássico não é um livro que se leu, mas que se está sempre lendo, por isso mesmo, cabe ao professor trazê-los para a sua realidade e a sua atualidade, como fez o episódio de The Crown, mostrando que não são obras que se encontram emboloradas e esquecidas, num tempo remoto, por nada dizerem de nossa época.
Ao professor, portanto, que se agarra à lamúria de que a leitura dos clássicos é difícil, como desculpa para não ler, é hora de pensar em mudar essa atitude. Ou é hora de mudar de emprego.