Carros, calor, asfalto e logo ali há uma flor, num cantinho de muro, nos canteiros do meio-fio. Ela se abre em amarelo e branco durante poucos instantes da manhã para em seguida se disfarçar de mato. Por entre recantos, ao largo de pneus, de pés em sapatos apressados, de bancas de ambulantes, detalhes urbanos.
Tão perto dali traços calmamente pensados, curvas e retas de belos sobrados, arquitetados com esmero, talento projetado da planta para realidade construída em cimento e tijolos. Urbanizar futuro com detalhes do concreto passado.
Línguas de falas, de beijos, de diálogos de palavras e de silêncios. Significados gritados e apalavrados. Língua do feirante do marketing no gogó a bradar que seus frutos e legumes são os melhores, tanto assim também baratos. Cheio de improvisos, a lábia solta para prender a freguesia. Meio assim também o marqueteiro político que faz o candidato ser irreal para si próprio e convincente para os cegos de percepções.
E novamente surgem as buzinas irritantes por mãos toscas e nervosas a querer impor suas vontades. Condutoras do caos que não vão a lugar nenhum. Logo ali, pequeno detalhe na praça através de mãos gentis que seguram firme e fazem girar a imaginação da infância. Crianças de ontem e de hoje em movimento, puxadas pelas mãos que trazem à vida a nova semente, ou resgatam da quase ida a alma ausente. Assim compõem as telas mais coloridas: vidas.
À espera, a caneta desliza rápido pela superfície do pedaço do papel feito rascunho sob o comando das mãos. Faz anotações das fainas alheias, ponderações sobre imponderáveis hipóteses dos espíritos inquietos, obrigações diárias e desobrigações atemporais. No detalhe, suave música invade o espaço, surgem passos, braços incautos bailam pincéis em movimento para montar figuras mágicas.