O “Memorial do Convento” é um dos principais romances do escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura. O livro trata da construção, na primeira metade do século 18, de um Convento localizado em Mafra, nos arredores de Lisboa, numa época em que Portugal vivia um período de grande opulência, alimentada pelos fartos carregamentos de ouro e diamantes que chegavam do Brasil.
Para o historiador português Antônio Sérgio, naquele tempo, Portugal se encontrava em um “delírio de luxo beato à custa das minas do Brasil”. E foi esse “luxo beato” que levou à edificação, em Mafra, de um misto de convento e palácio, que era o cumprimento de uma promessa feita pelo rei português D. João V para que a rainha lhe desse um herdeiro.
A partir da construção do convento em Mafra, Saramago costura a trama do seu romance, em que se misturam personagens fictícios e verdadeiros. Da lavra ficcional do grande escritor português surgem os memoráveis protagonistas da história: Baltasar, o Sete Sóis, que só consegue enxergar na claridade, e Blimunda, ou Sete Luas, a mulher que tinha a capacidade de ver por dentro das pessoas.
Outra figura realçada por Saramago em sua obra é a do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, ou Bartolomeu de Gusmão, como ficou mais conhecido, por causa do nome do seu irmão mais novo, Alexandre de Gusmão, secretário do rei português e um dos mais notáveis diplomatas de Portugal no século 18, encarregado da celebração do Tratado de Madri (1750), que substituiu o Tratado de Tordesilhas e definiu os novos limites entre os dois países ibéricos na América do Sul. O Tratado foi de vital importância para a expansão territorial do que é, hoje, o Brasil.
De volta à Bahia, em 1705, desenvolveu para o Seminário de Cachoeira — cujas instalações ficam em um local alto, o que dificultava o abastecimento de água para o prédio — um engenhoso sistema de “bombeamento” da água, a qual provinha de fonte que ficava muito abaixo da edificação. Ele chamou o invento de “maquinismo para fazer subir água”, conforme consta da Cessão de Privilégio, uma espécie de patente, que lhe foi concedida pelo Senado da Bahia. O funcionamento do sistema foi comprovado na presença de vários religiosos, por meio de termo emitido pelo reitor do Seminário de Cachoeira.
Em abril de 1709, Bartolomeu requereu ao rei D. João V um Privilégio para um invento que ele desenvolvera para se “andar no ar da mesma sorte que pela terra e pelo mar, e com mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentos e mais léguas de caminho por dia”. O que o padre construíra era uma espécie de balão das festas de São João, um balão aerostático que utilizava o princípio da expansão dos gases quando aquecidos e mantidos à mesma pressão. A lei da expansão dos gases ainda não era do conhecimento científico da época.
Bartolomeu de Gusmão é, atualmente, considerado o primeiro inventor nativo das Américas, pois, quando ele contruiu, na Bahia, o seu “maquinismo para fazer subir água”, Benjamim Franklin — reputado como o precursor da ciência nas Américas — ainda não havia nascido. Quando foi projetado e construído o balão aerostático do Padre Voador, o cultuado cientista norte-americano tinha apenas três anos de idade e ainda tomava mamadeira.
Depois do experimento com o balão aerostático, o padre Bartolomeu, talvez desencantado com as críticas satíricas e com o ambiente cultural retrógrado de Portugal na época, que não estimulava experiências científicas, dedicou-se mais ao púlpito, como capelão da Casa Real, tornando-se um dos principais oradores sacros do período que se seguiu ao do padre Antônio Vieira.
Em determinado momento, Bartolomeu de Gusmão, apesar de protegido do rei, viu-se às voltas com a temida Inquisição portuguesa. Uma versão muito difundida para a perseguição do Santo Ofício ao Padre Voador teria sido uma possível participação dele numa conspiração contra a Madre Paula, do Mosteiro de Odivelas.
O Mosteiro de Odivelas era notabilizado pelos pudins e doces feitos por suas monjas. Dizem que os célebres pastéis de nata de Portugal nasceram lá. O rei D. João V, como todo bom português, apreciava a confeitaria e a doçaria lusitanas, de reconhecidas excelências. Mas o monarca sentia-se atraído, também, pelas freiras que faziam aquelas maravilhosas guloseimas conventuais. Além de chamado “O Magnânimo”, ele era conhecido, com o devido merecimento, como “O Freirático”, devido à preferência por devotadas religiosas.
Por esse depoimento, sabe-se que o padre Bartolomeu havia abjurado o catolicismo e adotara o judaísmo. Naqueles tempos, o sacerdote que se tornasse crente da fé mosaica incorria em um dos mais graves delitos previstos nos códigos punitivos da Inquisição. A revelação da apostasia do Voador se constituiria, segundo Jaime Cortesão, em “um dos maiores escândalos e desaires daquela época, quer para ele, quer para o monarca protetor”.
Possivelmente, avisado de que o Santo Ofício tomara conhecimento da sua abjuração, Bartolomeu tentara embarcar, apressadamente, sem sucesso, para a Inglaterra. Resolveu, então, partir, a pé, para a Espanha, acompanhado do seu irmão João Álvares, um jovem frade carmelita de 21 anos. Para Cortesão “compreende-se bem que o apóstata, em tais e tão escandalosas condições, tivesse fugido, e que em Portugal se houvesse posto como sói dizer-se, uma pedra sobre o caso, tanto ele afetava o ‘decoro real’”.
No curso da viagem, Bartolomeu demonstrou, segundo relato de seu acompanhante, delírios com evidentes sinais de perturbações mentais. Depois de longa caminhada, chegaram a Toledo. Passados poucos dias, talvez debilitado pela extenuante jornada,
Em Toledo, na Igreja de San Roman, na antiga capital do reino de Castela, foi colocada, em 1912, uma lápide com a seguinte inscrição:
“En este templo de San Roman martir, reposan los restos de Don Bartolomé Lorenzo de Guzman, presbitero portugues, nacido em la ciudad de Santos, Brasil, en el año de MDCLXXXV, primer inventor de los aerostatos. Fallecido en esta capital em XIX de noviembre de MDCCXXIV La Ciudad de Toledo Te dedica este recuerdo”.
Em 1926, durante um congresso internacional de aeronáutica, realizado em Madri, os participantes de 21 países foram a Toledo depositar, na nave da Igreja de San Roman, uma lápide na qual estava inscrito:
“homenaje a Fy Bartolomé Lorenzo de Guzman precursor de l'aeronautica remontando-se en globo el año 1709. Sus hermanos de raza de 21 estados visitaron su tumba y colocaron esta lapide”
No Brasil, Bartolomeu de Gusmão, o Padre Voador, é, atualmente, uma figura praticamente desconhecida.