Nenhum som, senão o sibilar da chaleira sobre o pequeno fogareiro, perturbava o silêncio. No cômodo parcamente iluminado, abarrotado de pacotes atados com cordões de sisal, o homem forçava a vista para decifrar o destinatário de um envelope.
A péssima caligrafia e a penumbra espraiada pelo surrado abajur nas córneas embaciadas pelas cataratas precoces não tornavam a tarefa mais fácil. Era preciso espremer as pálpebras, amiudar a roda da pupila, como quem estima a curvatura da Terra pelas integrais de Euclides. Tornara-se aficionado pela geometria aplicada à matemática desde que abrira o livro de Cálculo no baú do pai. E, portanto, sabia que decodificaria aquelas garatujas. Ora se o faria! Anos de prática haviam-lhe concedido um poder metafísico. Sob o bruxulear da lâmpada, noite após noite, ao tocar os dedos delgados, sem digitais, nas abas das sobrecartas,
Nesses instantes mágicos, volvia sempre aos primeiros dias em que fizera essa inspeção. A descarga de adrenalina nas veias quando sentia as notas deslizarem umas contra as outras, com um gemido imperceptível; o trabalho labrogeiro, sem perícia, das primeiras aberturas; a recolagem melando tudo, a borra violando a brancura imaculada; a tensão quando o portador levava a encomenda, com a parvoíce estampada na face; o medo de ser descoberto. Tudo compunha um quadro que não lhe saía das retinas. Regurgitava-o, na expectativa de compreender o início daquilo.
Depois, a perfeição. O vapor fumegante derretendo a cola, à moda de um amante sussurrando no ouvido da musa. O adesivo sutilmente recomposto, por meio do alisamento da aba sobre o corpo sem pregas nem máculas, como se acabasse de ser depositado na caixa postal. Nessas ocasiões, recordava a voz da mãe. Só a voz. Sempre deitada, estomagada, adoecida. Mas com ele, doce. “Deita aqui, vem...” e o cheiro de naftalina com mentol dos lençóis narinas afora, embriagando-o.
O pai ausente, chegando com o escuro, fedendo à fábrica, ao mundo que tanto o rejeitava. Não era um homem mau; antes, frio. Aquela frieza d’alma que, como uma muralha de concreto, inibe o afeto. Deixa tão-somente o amargor dos retratos com a cabeça recortada. A única via pela qual se relacionava com ele eram os números, estes sim, apaixonantes. O quartinho escuro desde então houvera-se refúgio seguro, cenário perfeito para tais sentimentalidades. Chegara a pedir a Deus que o pai morresse e que a mãe ficasse só para ele. Como um bálsamo, nessas horas tresloucadas, a álgebra ocupava sua mente e varria tudo como um vendaval. Repassava tantos teoremas e equações que embotava os neurônios e dormia um sono letárgico. Sua alma sangrava. Porém, para a cidade incognoscível, era apenas o menino inteligente do engenheiro.
Tanto que passara no concurso público sem nenhum esforço. Não estudara nada do programa prescrito. Mas a mente ágil, habituada às demonstrações euclidianas, levara-o à primeira posição, com o privilégio de uma saudação do dirigente da repartição, em cartão pessoal. Escolheu ficar ali, no balcão improvisado na lateral da casa, enfeitada com uma meia-água de madeira, onde coletava as encomendas e cartas que iam e vinham a cada quinzena, num movimento de marés. A apertada saleta de uma porta onde despachava seu falecido antecessor não oferecia nenhuma condição de trabalho.
Dali a pouco, as histórias da cidade transmudavam-se em monstruosas. Apoiado na balaustrada da varanda, encurvado, à tardinha, observava as pessoas passarem, seguidas de uma espécie de halo cintilante, nas emanações do qual se achava representado o que lera nas cartas. A história do ser, em suma.
O prazer dos primeiros tempos, então, lentamente foi cedendo lugar a uma angústia indizível, que o amarrotava por dentro, esmagando seu abdômen com um peso atlântico. Começou com um encolhimento sobre si. Alguma disfunção da coluna vertebral, diziam-lhe. A impossibilidade de se manter ereto foi, todavia, se agravando. E o carteiro foi curvando-se, curvando-se, até torcer inteiramente o corpo adulto para um simulacro do grafismo que representa o infinito nas proposições matemáticas. E assim, como um feto em busca do infinito, a ambulância o levou naquela manhã.