Matam vidas, mas não assassinam a História. São João e Silvas brasileiros, filhos de pais e mães que dão o suor e o sangue do pão nosso de cada dia para lubrificar como óleo e garantir as engrenagens sempre funcionando. São milhões de anônimos, mundo afora. E negam tais mortes, numa pseudo sociedade autodeclarada tolerante, multicultural, que, contudo, distribui convites contados para a repartição da ceia no banquete do lucro. E o critério é a cor, o sexo, o credo, num ritual de exclusão auto-alimentado.
E na maioria das vezes a culpa pelo crime cai no pobre coitado do defunto, que se vivo mal teve a própria voz para defender-se, no caixão, calado, inerte, está condenado ao silêncio sepulcral. De vítima, torna-se culpado pela ousadia de pedir justiça. Condenado por ser negro e pobre, índio e pobre, homossexual e pobre, pobre e pobre.
Nas veias o sangue será sempre vermelho, pois até os ditos de "sangue" azul ao terem as cabeças cortadas nas guilhotinas francesas jorraram sangue vermelho, assim como os mártires que lutaram por "liberdade, igualdade e fraternidade" em todas as eras, de Marthin Luther King e seu sonho ainda distante, passando pela resistência e exemplo de Nelson Mandela e pelas preciosas preces e força do bispo Desmond Tutu.
É vermelho o sangue de gente pobre, de cor, da periferia ou do asfalto, índio das matas, mulato das vielas que é ignorado por ser pobre. Porém, estatisticamente provado e indiscutivelmente percebido, este é sempre mais escuro do que o dos demais.
Matam mais ainda ao negar a violência e a vivência, o que está às claras e por séculos jogado debaixo do tapete social, com a intenção de atirar embaixo uma parcela para que fique escondida. E que dali surja apenas para fazer a faxina do lixo deixado espalhado e no intervalo da labuta tenha que posar sorridente para uma foto dos "daltônicos" de que "somos iguais".
Fingem que após a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea tudo foi resolvido. O gesto da mulher do Palácio (Irônico que a libertação dos escravos fosse assinada por uma mulher, personagem tratada por muitos como uma escrava, uma propriedade, ou sub-cidadã em sociedades ditas modernas) foi um passo dado após e antes de outros, de uma caminhada que avança, porém, que está longe de terminar. Liberdade não é trocar a senzala pela favela. A carta de alforria tem que ser completa.
Que se tire a chibata dos capitães do mato modernos, que se mude o discurso, que se puna os assassinos. E que se impeçam as agressões. Que brancos, índios e negros entendam o que esbofeteia diariamente o mundo atual.
E quanto à História? Ela seguirá irrefreável. Só resta escolhermos em que lado dela colocaremos nossa assinatura.
O racismo não têm forças para matar o mais belo. A capacidade do ser humano se reconstruir, lutar, renascer. Se proibirem o batuque, o corpo será o instrumento, como conta a própria História. O espírito será livre, mesmo com pés e mãos acorrentados. É possível amarrar o corpo físico, mas nenhum exército sobrepuja um espírito que se libertou.
Que eu reveja meu discurso, que eu perceba a dor do outro, que eu enxergue que tenho o mesmo tamanho do próximo ou do distante, seja ele de fisicamente como for. Que eu veja que sou diverso e igual na humanidade de cada um. Que eu identifique o que há de racismo e preconceito em mim mesmo e evolua. Que eu me arme de palavras e gestos, que eu abra a mente no luto, eu luto.
Clóvis Roberto é jornalista e cronista