A falta de diálogo e reflexão sobre a comunicação social traz prejuízos consideráveis à divulgação da Doutrina. Um corpo teórico que normatize procedimentos e rotinas ainda é uma lacuna a preencher. A isso somam se outros problemas rotineiros nas agremiações humanas, inclusive espíritas: os avanços do personalismo, da politicagem, das atitudes ególatras, da falta de humildade para avaliar com isenção potenciais e desempenhos, sem se deixar cegar pela bajulação e mantendo o foco na divulgação. Sobre essa montanha de problemas pode-se acrescentar ainda os palpiteiros de plantão e os que julgam conhecer profundamente uma profissão diversa da sua unicamente porque assumiram cargos de direção em instituições espíritas.
O resultado disso é o cenário atual: raros veículos cumprem a função básica da comunicação social. Poucos informam com agilidade, trazem textos enxutos ou diagramação, fotos, roteiros e edição de boa qualidade. Muitos textos mornos, insípidos, que não atraem o leitor.
E dessa forma vemos uma estranha dualidade: nas ruas, os espíritas falam uma língua compatível com sua época, com seus ritmos e avanços; mas na instituição espírita sacam de um vocabulário específico, em que palavras incomuns, algumas já em desuso, oferecem o status da inclusão e da aceitação no grupo. Um fenômeno que merecia ser estudado: quanto mais próximo ao vocabulário de alguns espíritos conhecidos por seus livros,
Mas tudo isso tem uma outra face difícil de encarar: para quem se está fazendo comunicação social espírita? Para o grupo de espíritas ou para o público que ainda desconhece a Doutrina? A esse grupo externo causa estranheza essa linguagem nostálgica. Também está desacostumado com uma outra prática que se incorporou ao cotidiano espírita: o bonitinho. Funciona assim: pessoas que fora da instituição espírita têm contatos com folhetos de qualidade, fotos bem tratadas, jornais e programas de TV de alto padrão, no centro espírita abrem mão de tudo isto. Passam a elogiar folhetos mal feitos, produtos de qualidade duvidosa, exageros de criatividade em que a técnica passou longe. E escondem a opinião sincera sob a desculpa da caridade. “Ah, não está tão bom, mas a pessoa se esforçou tanto e, para agradá-la, vou dizer que está bonitinho”.
Poderia ser assim: “Acho fantásticos a sua boa vontade e seu esforço, mas precisa de ajustes e de um tratamento profissional”. Mas então entra em cena um dos monstros que mais corroem as relações humanas: o melindre. E pensar que o Espiritismo veio justamente para libertar a nossa alma desses apegos infantis, desses sentimentos menores.... Mas isso é outra conversa.
Exposto o problema, fica a questão: há como escapar desse cenário? A resposta foi dada há exatos 163 anos. No dia 15 de novembro de 1857, apenas seis meses depois do lançamento de "O Livro dos Espíritos", Kardec interrogou os Instrutores desencarnados sobre a possibilidade de publicar um jornal espírita: o primeiro do mundo. A resposta – pela mediunidade de Ermance Dufaux – veio sob a forma de um verdadeiro manual de comunicação social espírita. Manual que o codificador soube seguir à risca e que os espíritas do século 21 ainda não conseguiram pôr em prática. Quem se interessar pelo assunto pode consultar o texto.
Outro ponto: a regularidade que fideliza o público.
Um dado curioso: Kardec insiste em saber se deveria ter um amigo para financiá-lo. Os espíritas não se entusiasmam e ele opta por fazer a Revista sozinho. Mais tarde (leia a nota de pé de página no livro citado), o codificador reconhece que as interferências do financiador poderiam ter comprometido o trabalho. Traduzindo: a independência tem peso no bom jornalismo. Aspecto essencial que revela o pensamento avançado dos desencarnados: a sugestão de que o texto equilibre o estudo sério e os fatos capazes de atrair os leitores curiosos. A genialidade de Allan Kardec manteve essa linha em doze anos de Revista Espírita. Basta ler a publicação dele para se render aos títulos inteligentes e à seleção de matérias. Tudo muito interessante, provocativo. O leitor é instigado. Lê-se a Revista Espírita de um fôlego só. Mesmo passados um século e meio, os textos continuam hipnóticos – marca registrada de um bom escritor e de um bom jornalista. Aos jornalistas espíritas deste século, ainda resta uma esperança: redescobrir a orientação sobre comunicação social que permanece oculta nas páginas de Obras Póstumas. Lembrando de que há 163 anos, os espíritos deram a Allan Kardec um roteiro de comunicação espírita.
Sonia Zaghetto é jornalista e escritora