Nas demais profissões não se espera que a mulher acompanhe tão visceralmente o marido, como a de um político. Ninguém espera que a companheira de um cirurgião plástico esteja na sala de cirurgia cada vez que ele vai fazer um lifting; ou que a mulher de um ator compareça sempre nos ensaios pitacando;
Sempre leio reportagem com as mulheres e mães de políticos que assumem o seu papel de primeira "alguma coisa", principalmente em épocas de eleições. Viram quase-candidatas, e vestem literalmente a camisa da candidatura, da legenda, e do palanque do marido. A casa vira um comitê e elas, ferrenhas cabos eleitorais. Participam de todas as atividades, acenam para os eleitores, beijinhos, visitas, santinhos e no palanque, lá estão elas, do lado, a postos!
Bacana! Mas não deveria ser regra nem obrigação, pois ninguém é obrigado a gostar da profissão do marido. Mais importante é gostar dele. Já deveria ser suficiente. Daí que muitos estranham quando alguma mulher de candidato, talvez uma extraterrestre, mantém-se fora do circuito eleitoral.
Pois é, existem mulheres à margem deliberadamente. E nem por isso quer dizer que torcem contra, ou que são submissas, ou que não sabem se comportar como manda o figurino. Elas simplesmente têm outros interesses, se emocionam através de outros canais, não têm tempo,
O mundo continua a rodar, o dia a amanhecer, as crianças a frequentar a escola, o cachorro a latir, a noite a uivar, e a vida a ferver, e nem sempre essa fervura se dá para ela no horário eleitoral. Acompanha sim, mas a certa distância e com entusiasmo. Quer ver as pesquisas, os índices; a política está presente, mas de uma outra forma: no cotidiano, no seu fazer diário, nos acontecimentos, e na esperança de ver um país mais justo.
Mas o frenesi de uma campanha eleitoral não é para todos. É para o marido dela. Infelizmente não é para ela! Sua panfletagem? É outra! Quiçá a poesia!
Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora