São conhecidos os fortes laços que unem Gilberto Freyre à Paraíba. Não vou, portanto, trazer novidade para o leitor. Mas isso não deve ser impedimento para revisitarmos o tema, nem que seja para, neste particular, exercitarmos um justificado orgulho de uma paraibanidade que, em outros aspectos mais recentes, tem deixado a desejar.
Creio ser justo afirmar que, de todos os estados nordestinos, a Paraíba foi o mais próximo do grande pernambucano. É possível que a proximidade geográfica tenha facilitado essa aproximação, mas lembremos, por exemplo, que Freyre não se ligou tanto aos seus vizinhos ao sul, os alagoanos, igualmente próximos do ponto de vista físico. Mas vamos aos fatos.Em 1924 Freyre retornaria à Paraíba para nova conferência, dessa vez no Teatro Santa Rosa. Note-se que ainda não era o célebre autor de “Casa Grande & Senzala”, que só seria publicado em 1933. Mas já era, sem dúvida, um intelectual de destaque, pois do contrário não teria sido convidado para falar aos paraibanos. E aqui cabe uma observação minha: imagino que esse precoce convite muito deve ter tocado o jovem e já vaidoso coração freyriano, contribuindo para estreitar seus laços afetivos com a terra tabajara.
Agora os amigos. Como se sabe, foram muitos os de origem paraibana. E para isso certamente contribuiu o fato de que, até começos da segunda metade do século passado, os paraibanos de certa condição iam estudar em Recife, cuja Faculdade de Direito era então um célebre centro formador de bacharéis. Dá para se entender que, chegados à capital pernambucana, onde Gilberto Freyre pontificava desde os anos 1920, nossos conterrâneos fossem por ele atraídos do ponto de vista intelectual, principalmente depois de 1933, quando veio a público “Casa Grande & Senzala”, monumento cultural do Brasil.
Freyre foi amigo de José Américo de Almeida. Conheceram-se em 1924, através de José Lins do Rego. Em seu já citado diário, fez a seguinte anotação sobre a nova amizade: “J.L. do R. me faz conhecer o seu grande triunfo paraibano: é J. A. de A. Um triunfo, na verdade. Não se confunde com a mediocridade intelectual que aqui, como em Pernambuco, tenho conhecido. Destaca-se do próprio D. D. F. Muito míope, feioso, um tanto desajeitado nos modos. Mas dominando esses traços negativos, uma força de personalidade que se faz sentir de maneira irresistível. Não se faz sentir pela ênfase nem dos gestos nem de palavras. É uma força suave. Suave porém marcada por energia interior capaz de se tornar, sendo preciso, exterior. ... É um escritor. Euclidiano, por vezes, em sua frase, a forte personalidade não permite que nele o estilo deixe de ser o homem.” Veja só que perspicácia do pernambucano.
Amigos também foram os paraibanos Olívio Montenegro e Odilon Nestor, entre outros. Mas ninguém na Paraíba – e talvez fora dela – superou, como amigos íntimos de Freyre, José Lins do Rego e Odilon Ribeiro Coutinho. Estes dois só foram talvez igualados, no coração freyriano, pelo recifense Edson Nery da Fonseca. Páginas e páginas já foram escritas sobre essas duas imensas amizades paraibanas de Gilberto Freyre, razão por que considero desnecessário estender-me aqui sobre o assunto, limitando-me apenas a fazer dois registros: Zé Lins talvez não tivesse sido o escritor que foi sem a benfazeja influência intelectual e literária do pernambucano, e Odilon terminou sendo um dos maiores gilbertólogos do país, como prova seu precioso livro “Gilberto Freyre ou O Ideário Brasileiro” (Topbooks, 2005).
Como se vê, foram muitos e foram fortes os vínculos que uniram e unem a Paraíba a Gilberto Freyre. Esperemos que ela saiba honrá-lo, assim como a honrou aquele que, nas palavras do historiador Clênio Sierra de Alcântara, “segue como um farol – talvez o mais reluzente farol – iluminando o horizonte das vagas explicadoras da nacionalidade brasileira”.