“Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim”, assevera Cândido. E é o que também penso diante do Brasil e do mundo de nossos dias. E não estou nem considerando a pandemia, vejam só. A mim – e a tantos – aflige mais o cenário político, econômico, social e cultural, um cenário dominado por acontecimentos e personagens capazes de nos levar ao mais agudo pessimismo coletivo e individual. Mas não vou entrar em detalhes, que eu tenho juízo. O leitor há de entender e perdoar essa cautela.
A coisa está preta? Cultivemos nosso jardim. Tudo está difícil? Cultivemos nosso jardim. Parece não haver esperança? Cultivemos nosso jardim. Na frente da casa ou no quintal, cultivemos nosso jardim. Nosso jardim minúsculo, um simbólico pé de tomate que seja, cultivemos. Vai servir para algo, vai nos ocupar, vai nos dar força para seguir em frente.
Aqui é preciso, creio, ficarmos atentos a um ponto fundamental. Cuidar da nossa vida não pode significar uma atitude egoísta, isolacionista, que nos distancie, indiferentes, dos semelhantes. Pois isso, claro, não é bom. Cultivar nosso jardim consiste, enquanto o mundo desmorona, enquanto o absurdo domina, enquanto os maus e os idiotas reinam, em irmos tocando a vida como podemos, cada qual do seu jeito, dentro de suas possibilidades, seja como médico, gari ou aposentado, cada um colocando seu tijolo no grande muro da vida comunitária e pessoal.
Isto significa dizer que, enquanto indivíduos e cidadãos, não devemos ficar esperando pelo Estado, pelo governo (qualquer que seja), pela Providência, por Godot ou seja lá por que for. Devemos seguir fazendo o que nos compete, da melhor maneira, dependentes apenas de nós mesmos, na medida do possível.
Porque este não é o melhor dos mundos, caro dr. Pangloss. Nem o pior, certamente. Este é apenas o mundo que nos cabe, porque somos nós que o fazemos, a cada dia, com nossos muitos erros e poucos acertos, está claro.
É certo que cultivar o jardim não resolve tudo, mas não há dúvida de que nos ajuda a resistir e a continuar, o que, convenhamos, não é pouca coisa. Mãos à obra!
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB