Permitam-me aventurar no mundo literário e escrever uma crônica dedicada ao meu amigo, confrade, professor e cronista Carlos Romero. Ele foi um homem de múltiplas viagens, creio que conheceu os cinco continentes do planeta, em companhia da sua amada família. Utilizei-me desse hobby preferido, para relacioná-lo com as minha reflexões. Assim como numa viagem, podemos escolher as rotas pelas quais percorreremos para o deslocamento, decidi pela rota das lembranças de uma convivência pessoal de mais de 30 anos, pequenos recortes fragmentados de histórias e metáforas, risos e espiritualidade.
Nos encontrávamos frequentemente e fortalecíamos mais ainda nossa amizade. Procurava-o até como confidente espiritual. Contou-me muitas histórias sobre seu Pai, Augusto Romero, que presidiu a FEPB, durante 44 anos e particularmente me interessava muito saber sobre esses assuntos, apesar dos meus vinte e poucos anos. Tornei-me leitor assíduo de suas colunas nos jornais, recortava e colava num caderno para colecionar e também debater com o autor, que tinha satisfação enorme nesses colóquios. Fez-me conhecer a alimentação macrobiótica, uma dieta a base de cereais e rígida na sua fundamentação. A partir daí, apresentou-me seu fã filho, Germano Romero, um músico e arquiteto cuja ligação afetiva, Pai/filho, muito impressionava-me. No senso comum, podíamos dizer, duas almas gêmeas, para a Doutrina Espírita, porém, duas almas afins, ligadas por laços espirituais anteriores.
Vejam que inicio de viagem, já começamos falando de dádivas que temos e não nos apercebemos. Continuamos os preparativos da viagem e outra surpresa, o Professor Carlos disse: - Marco você vai dirigindo. Confesso que nunca tinha dirigido uma carro tão chique, fiquei meio sem jeito, mas aceitei. Pensei, meu Deus, dirigindo um carro desse ainda mais conduzindo o Professor, que honra. Muitas emoções estavam por vir. Pegamos a estrada em direção a Serra da Borborema, a conversa inicia sob uma suave música de fundo de Ludwig Van Beethoven, Johann Sebastian Bach, entre outros clássicos. Algumas pérolas desse diálogo que consegui armazenar na memória: “a vida, assim como uma estrada, não é constituída apenas de retas. A vida tem curvas variadas, tem declínios e subidas, terrenos ásperos, encharcados, lameados e também planos. Percorrermos todos os terrenos faz parte do plano divino de elevação espiritual. Todos nós partimos de um ponto comum, a simplicidade e a ignorância, isto é, a falta de conhecimento das coisas. No entanto, nossa meta é a perfeição relativa, temos no nosso DNA os códigos divinos da perfectibilidade. O combustível para atingirmos é a vontade firme no bem. Jesus nos ensinou o modus operandi de amar; a nós mesmos, ao próximo e a Deus. A Doutrina Espírita reforça a necessidade de praticarmos a caridade, pois sem ela não há salvação”.
Perto de chegar ao destino, tivemos um pequeno susto, numa curva acentuada, como não estava habituado com a dinâmica da direção hidráulica do Monza, o carro deu uma escapulida do ângulo da curva. Tivemos com muito esforço, controlar o carro, voltar à pista e seguir seguro. Daí filosofamos com tranquilidade, na vida as vezes damos umas saídas equivocadas e sofremos para achar o roteiro de volta. Mas com boa vontade, reconhecendo os nossos erros, encontramos mais rápido o caminho de volta. Lembramos da parábola do filho Pródigo contada por Jesus.
Chegamos ao destino e a palestra ocorreu num clima de muita paz e espiritualidade compartilhada, sob o cenário dos ventos uivantes da Serra. O tema da noite foi muito apropriado, explicado com ternura e sabedoria, o Sermão do Monte e as Bem Aventuranças. Descemos a Serra na mesma noite, depois de nos deliciarmos com um saboroso sanduiche macrobiótico e com a consciência pacificada pelo dever cumprido.
O espírito aventureiro continuou nos movendo. Esses esforços na divulgação da Doutrina em terras distantes, lembra muito as lutas ingentes dos primeiros cristãos, nas Comunidades do Caminho, retratadas pelo Professor Severino Celestino nas suas obras. Paulo de Tarso, por exemplo, percorreu mais de 2.000 mil quilômetros a pé, nas ásperas estradas de Israel, da Grécia entre outras, para divulgar o Evangelho do Cristo.
A terceira viagem que destaco, representa a nossa Grande Viagem com destino a infinitude da Vida, que o Professor realizou-a recentemente. Gostaria de concluir essa crônica, ofertando um poema ao nobre amigo Carlos Romero, agora livre como um pássaro, como espírito imortal na sua jornada de aprendizado constante, que os versos desse poema tecidos na intimidade do meu coração, traduzam minha gratidão pelos anos de convivência e de aprendizado:
A Grandeza da Vida
“A vida é um poema de beleza
Cujos versos são constituídos
De propostas de luz
Escritas na partitura da natureza
Que exalta a presença em toda parte”.
(Joanna de Angelis)
Poema grandioso aflorando no minúsculo protoplasma, embrião de todas as organizações da vida. No escoar incessante do tempo, esses seres primordiais, viajam no rumo dos seus destinos, sob a inspiração do Divino Artista.
Do átomo ao arcanjo, do simples ao complexo, do micro ao macro, tudo exalta a presença da vida. Das profundezas dos oceanos as mais distantes galáxias, nos multiversos fenomenais, desde a mais rude das criaturas aos mais sábios e santos, as asas da evolução impulsionam, voos e subidas, a vida é um poema de beleza escrito na partitura da natureza.
A Vida é grandiosa em si e por si mesma, a vida nunca cessa, a vida é imortal. Segue por todos os caminhos, pelos desertos áridos, pelos vales verdejantes, pelos montes sagrados. A vida é um poema de beleza escrito na partitura da natureza.
Com a filosofia a vida é sábia, com a ciência a vida se desvela, com a religião a vida transcende, com a arte a vida é bela.
Marco Granjeiro Lima é educador, mestre em serviço social e presidente da Federação Espírita Paraibana