Escuto o pulsar frenético do meu coração ao tentar desvincular Serraria das paisagens que vejo no amanhecer de cada dia durante as cinco décadas como morador desta cidade, e montei a fotografia na memória. Ouço as vozes da infância, assim como José Américo, igual a Gonzaga e tantos outros que se deixaram conduzir pelas imagens recolhidas em tempos remotos. Chego à janela para o olhar prolongado e a tênue silhueta do Sol madrugador sobre as folhas do cajueiro do nosso quintal, lembrando o alvorecer dos dias que Tapuio proporcionou-me observar.
O olhar místico do morador do Cabo Branco, sentado na cadeira de balanço, mão no queixo e olhar ao largo, escutando a zoada do mar e sentindo o águo das ondas na gama do quintal, parece um olhar voltado para as antigas paisagens do Brejo de Areia com os mistérios que se alargam na imensidão do mar à sua frente. Durante quase sete décadas, Gonzaga também fixou na mente muitas paisagens desta cidade, sem nunca esquecer a Alagoa Nova da meninice, que são sempre recordadas em crônicas e textos poéticos. Testemunhei quando, retornando ao lugar mais de oito décadas depois, sentando à sombra da jaqueira que muito lhe serviu frutos e brisa, encheu-se de recordações e saudades.
Por mais que nossos olhares estejam fixos nesta cidade, como fitaram o autor de “A Bagaceira” e o cronista de “Notas do meu lugar”, são para as encostas das serras e os banguês do Brejo, recantos onde nascemos, que a nossa visão se volta no entardecer da vida de cada um.
Ainda remanchando para abeirar-se ao cume da arte, tentando chegar ao estágio que ambos conterrâneos conquistaram, porque meu caminhar é lento, recordo o que Guimarães Rosa falou, no “Grande Sertão: Veredas”, de que “a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso”.
José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP