Eu tenho o meu mar, a minha chuva, a minha lua, o meu vento... Quando eu os quero por perto fecho os olhos. Eu tenho o meu próprio por do sol litorâneo e seus multi tons de um quase branco ao rubro denso ou o do Sertão, quadro estampado no horizonte como se terra e céu se unissem. Sim, consigo sentir até o cheiro e perceber a cor intensa da flor mais bela largada pela estrada, em algum campo ermo, em qualquer estação onde já não passa trem, só o verão, ao fechar os olhos.

Ou o silêncio mais revelador, a poesia interna e externa, da alma e da vida, que grita, que salta, que luta, resiste, até seguir.
Trago para perto de mim o São João colorido, o Carnaval sorriso e o réveillon emotivo. São aquarelas pintadas em telas, gravadas em películas mentais. Quando as quero por perto, eu fecho os olhos. Por vezes, basta uma piscadela para que surjam e sumam em um relâmpago de um junho chuvoso ou de um verão de fevereiros.
Construo respiradouros concretos com ferramentas e parafusos imaginários. Argamassa de nuvens reboca as paredes invisíveis erguidas com tijolos de algodão doce, criações de murais coloridos em tons suaves, feitos de açúcares que adoçam infâncias. Sim, tudo isso quando fecho os olhos está ao toque da mão a brincadeira tão divertida.

Eu tenho o meu mar, a minha chuva, a minha lua, o meu vento e o meu sol... Quando eu fecho os olhos os trago até aqui. Quando os desejo em meu mundo real, as pálpebras se cerram e escuto as ondas, percebo a direção do vento e o sopro no rosto. Ouço a fala no ouvido, vejo o desenho na areia salgada. E da água doce que brota invertida dos altos tetos, é céu. Forte, mansa, constante ou passageira pinga apenas no meu corpo, molha um mundo todo. Ao nascer gigante na beirada do mar ou da terra em sua plenitude é prata e ouro noturnos.
Quando eu fecho os olhos, eu os vejo no escuro, remonto-os, reconto-os. Quando fechar os olhos, eu os levo comigo para sempre... continuarão comigo após eu fechar os olhos.
Clóvis Roberto é jornalista e cronista