No último dia 27, dia de Cosme e Damião, me agarrei em uma lembrança que me tomou nos braços para um passado tão belo e de tanta pureza que me fez emocionar. Vivi minha infância em uma mercearia em casa, ‘A Bodeguita’, criada por Papai em 1989. Queria ele deixar de lado certas picuinhas de trabalho e passar a ser patrão de si próprio. Com espírito empreendedor, resolveu arriscar. Mas dela falaremos em outra hora.
Um momento marcante naqueles tempos era a distribuição de doces no dia dos mártires católicos, os gêmeos São Cosme e São Damião. Nessa tradição, vinda com os colonizadores, os santos têm a fama de curar pessoas e animais sem cobrar, tornando-se padroeiros dos médicos e farmacêuticos, comemorados no dia 26 de setembro.

Na Bahia, além dos doces, a alegria da criançada é feita por um prato afro-brasileiro típico e de vigorosa sustância, o caruru, preparado nas comunidades. Certa vez, ouvi em Salvador que o ‘caruru dos santos’ ou o ‘caruru dos sete meninos’ é importante reforço alimentar, sobretudo para as crianças da periferia, com as bênçãos dos Ibejis. O sincretismo e a tradição trataram de unir tudo e as crianças ganharam o protagonismo.
Em todo o Brasil temos (além das celebrações dos cultos religiosos) o costume de distribuição de doces e ali no início da década de noventa, na mercearia, Papai assistiu uma matéria na tevê que falava sobre um certo empresário no interior de São Paulo que todos os anos distribuía um caminhão de brinquedos e, comovido com a ação generosa e a emoção das crianças, sentiu muita vontade em repetir o gesto, mas como as condições não eram as mesmas, tratou de adaptar à sua realidade.
Fomos à Feira Central, ainda me lembro a loja, que deve existir ainda, Demontiê presentes (era lá o paraíso dos times de botão!) e Papai comprou para dar aos meninos carrinhos de plástico e para as meninas bonequinhas. Os brinquedos cabiam na palma da mão, mas bem mimosinhos, e uns pacotes de balas, além de saquinhos. Organizamos tudo à noite e no outro dia a notícia se espalhou feito rastilho de pólvora: “Seu Roberto tá dando presente para as crianças, é dia de Cosme e Damião!”.
Uma legião de crianças vindas de todos os recantos, e a fila se formava. Havia tantos desconhecidos que Papai passou a perguntar onde moravam. Lembro de ter vindo menino lá da Vila dos Teimosos (do outro lado do Açude de Bodocongó) nos braços da mãe e também da Ramadinha e Conjunto Severino Cabral. Eu por ali pelos meus seis, sete anos, fiquei impressionado com aquilo. E no ano seguinte, a fila de crianças chegou à esquina, lá “em riba” da rua, só dava para organizar até um certo ponto. Carrinhos ou bonecas, dois confeitos de iogurte e um chiclete em um pacote plástico, quanta felicidade expressa nos olhos e por tão pouco.

E assim era feita a alegria da criançada, se para alguns aquilo era um simples brinde, para muitos, era um brinquedo mais que especial, as vezes o único. Crianças de subúrbio, pobres de brinquedos, mas ricas e inventivas em brincadeiras. Por alguns anos, o dia de Cosme e Damião foi muito esperado naquela rua, até o ano em que o comércio fechou as portas. Daqueles momentos tirei uma série de lições, uma delas foi quando eu pedi um carrinho a Papai, ele disse: – Meu filho, deixe para o final, se sobrar eu te dou. Controverso fiquei até entender que o pouco que eu tinha, era muito para aqueles ansiosos meninos vindos dos arredores.
A rua empoeirada e cinzenta ficava florida de meninos e meninas, crianças barulhentas, alegres, inquietas, brincalhonas e sorridentes, colorindo cada recanto e dando um banho de esperança e leveza em suas existências e no mundo. Minha bênção Seu Roberto, saudades do dia de Cosme e Damião!
Thomas Bruno Oliveira é mestre em história e jornalista