Começo dizendo que quem mais entende de Villaça na Paraíba é o nosso Chico Viana, cuja dissertação de mestrado, belamente intitulada “Travessia do Mosteiro”, é justamente dedicada à obra autobiográfica daquele que se tornou um dos maiores memorialistas do Brasil. Chico leu tudo ou quase tudo de Villaça e sobre Villaça. Mais ainda: Chico conviveu com Villaça, no Rio de Janeiro, conversando com e até mesmo ouvindo confissões do escritor carioca, o que lhe forneceu ferramentas críticas e hermenêuticas a que poucos tiveram acesso. Chico, além de admirador e estudioso de Villaça, converteu-se, como não poderia deixar de ser, em dileto amigo do autor, o que lhe reveste de credenciais únicas para falar sobre ele.

Livro original, sim, mas também livro belo e livro sofrido, testemunho dolorido da “travessia do mosteiro” de que fala Chico Viana em sua dissertação. Testemunho amargo de ilusões perdidas e de uma enorme decepção juvenil. Decepção com o mosteiro - e com os monges, afinal tão iguais ao mundo que o jovem Villaça pensava estar deixando para trás quando adentrou o multissecular edifício beneditino, no Rio. Mas o mundo rasteiro e medíocre estava dentro do mosteiro, com todos os seus vícios e misérias, e a fantasia literária e religiosa do rapaz sonhador desfez-se dolorosamente. Se o mosteiro era igual ao mundo em sua pequenez, por que ficar lá, desiludido? Tudo isso é a matéria de “O nariz do morto”, narrativa de um calvário existencial.

Em algumas passagens de “O nariz”, Villaça chegou a ser quase cruel com alguns de seus antigos companheiros de claustro: “Dom Fábio fungava... Dom abade era porco, não limpava as unhas ... Dom Hermógenes era ou é um quase débil mental”. E ainda: “Quando vi a vulgaridade dos monges e frades, sua cotidianidade, horrorizei-me. Aquilo era bárbaro.” Villaça não resistiu: abandonou a casa de São Bento, no Rio, e foi para o mundo, viver sua consumada e inquieta vocação para as letras.
Um dia, Gilberto Amado lhe disse: “Você não cabe no mosteiro”. Ao que Villaça respondeu: “Mas o mosteiro cabe em mim”. E era verdade. Porque, a despeito de ter deixado a clausura, onde não chegou a ser ordenado monge, a condição e o espírito monásticos nunca deixaram Villaça, cuja vida celibatária e modesta, cuja barba de profeta e cujas vestes negras habituais levaram alguém a chamá-lo de “Dom Abade das Letras”. E era mesmo. Em artigo publicado por ocasião de seu aniversário de cinquenta anos, ele mesmo confessa: “Saí, acabei saindo. Mas em certo sentido não saí. Meus ossos estão lá, enterrados, sob as pedras. Ou passeiam no escuro, de noite, entre morcegos e ratos, à procura de uma paz que hoje sei impossível”.
Claro está que o livro vai muito além do mosteiro, experiência particular do autor. Seu grande tema, para mim, é a angustiante procura do destino por um jovem no começo da vida adulta. Procura que é de todos, no mundo inteiro, em todos os tempos, e que é decisiva para cada um, nem sempre com final feliz. Rito de iniciação. Descobrir quem se é e quem se quer ser. Nisto reside a universalidade de “O nariz”. A propósito, podemos dizer que o nosso Chico Viana também abandonou em tempo o seu mosteiro (o curso de Medicina), para abraçar, tal qual Villaça, e com imenso êxito, a incontornável vocação literária. Chico fez, discreto, a sua travessia laica aqui na aldeia. E certamente sofreu.
Descobri Villaça no sebo do saudoso Pontes, lá na Visconde de Pelotas. Certo dia, estava a buquinar quando caiu-me às mãos uma primeira edição de “O nariz do morto”, ofertada pelo autor a conhecido intelectual paraibano, então recentemente falecido. A leitura foi para mim um alumbramento, como diria o poeta. A partir daí, fui atrás de seus outros livros e nunca mais deixei de tê-los como amigos.
Apesar de tudo, Lelento e Sigismundo vivem. E viverão. Sobre eles, espero muito, o olvido não há de prevalecer.
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB