Mesmo sendo apenas o início da Primavera, no calendário, já vem com sol intenso, calor, bom de praia. E nesse período, é quando o vento muda e limpa a cor do mar. Chuva, só essas fininhas, geralmente no início do dia, ou quando o sol está bem forte, no final da manhã.

Quando eu era pequena e acontecia uma chuva dessa, com o calor da terra, meu avô-painho dizia: “vem para dentro de casa para não pegar essa quentura da terra que dá gripe”. E eu ia brincar no terraço sentindo ainda o cheiro bom do solo molhado. Lembro sempre dele e dessa sensação agradável.
Que prazer sentir o cheiro da chuva que anuncia as frutas de que gosto tanto, mesmo que hoje elas estejam à venda quase o ano todo. O caju, a manga, o sapoti, a pinha, a jaca, o araçá, e outras que são melhores para suco como cajá e mangaba, embora essa seja uma delícia também para comer colhida na hora, madurinha, um sabor dos deuses. Sem falar no umbu, na ciriguela e na rainha de todas - a jaboticaba! - que quando pegávamos uma porção grande, vinha o alerta: "cuidado para não engolir o caroço, ficar empanzinada e ter indigestão".

O mais curioso é que a internet hoje está cheia dos especialistas abordando essa questão, falando dos nutrientes da manga e do leite, e que não faz mal nenhum ingeri-los juntos. Nem mesmo à noite.

Ainda havia o temor das comidas reimosas, como peixe de carne escura, sem escamas, e comidas que “pioram as inflamações", como macaxeira.
Mas hoje, com essa chuvinha que caiu de manhã, volto a memória para as frutas. Uma delas me chamou muito a atenção, certa vez, em Florianópolis: o araçá, que eu só conhecia o da praia, um arbusto nativo, cheio de frutinhas pequenas e deliciosas com leve gosto de goiaba. Lá me deparei com árvores grandes, lindas, cheias de um araçá diferente, que há em toda parte, nas praças e nas margens das lagoas.

O mesmo espanto tive com a carambola. Aqui quase todo quintal tinha carambola. Dava para pegar fácil, seus frutos maduros. Já lá em Goiás, vi árvores grandes com uns oito metros de altura, carregadas de carambolas, um esplendor.
Hoje não há mais essa diferença entre frutas da época, pois a maioria dá o ano inteiro. E não têm o mesmo sabor. Falta-lhes a espera da fruta, na sua época. Mesmo assim, continuo com minha memória afetiva quando sinto o cheiro da flor do caju, nas caminhadas no parque aqui perto de casa. Esse prazer de comer a fruta no pé é diferente, especial. As goiabas, os araçás e cajus nativos davam facilmente nos terrenos arenosos baldios, perto da praia.

Tudo tinha uma beleza que poderia passar até despercebida. Os cajus eram vendidos amarrados, um a um, com uma linha fininha feita com palha de coqueiro. Era a corda de cajus, que o vendedor trazia todos amarrados em cada ponta de uma vara, apoiada no ombro, como se fossem dois balaios. Podíamos escolher sem amassar nenhum. Puro sabor e poesia. Quanta sabedoria tem o homem simples, seja do campo ou da cidade. Mas com a chegada do plástico e do isopor, essas soluções tão ecológicas e criativas se perderam no tempo. E o lixo das nossas casas, cada vez mais se enchem de entulhos sem solução. Lixo que polui nossos rios e principalmente nossos mares. Precisamos voltar a ter mais poesia e menos plásticos. Menos lixo sem solução.
Rejane Vieira é graduada em comunicação e mestra em saúde pública