As cidades britânicas e suas histórias me fascinam. Em oportunidades diversas, visitei a Inglaterra, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda, e conheci suas ruas, estradas e o belíssimo interior. Nessas ocasiões, imaginei os filmes, os contos e os romances que tinha lido ou visto. Estive em lugares que lembravam os cenários das histórias de que tanto gosto, como "Mrs. Dalloway" (1997), "Notting Hill" (1999) e as adaptações dos livros de Jane Austen. Realmente sinto algo forte.

Voltando ao filme, que vi na Netflix... é uma preciosidade! A história se passa em Hardborough, com estradinhas sinuosas à beira mar, casinhas, jardins e um pequeno comércio. É nesse lugar costeiro, de onde barcos e pescadores ancoram e partem, de pessoas avessas aos livros, que Florence Green, viúva há 14 anos, com coragem e determinação, decide se instalar, com o seu amor pelos livros.
Emily Mortimer protagoniza Florence. Essa atriz tipicamente inglesa, que conheci nos filmes "Paris, Eu te Amo" (2006) e no inesquecível "Match Point" (Woody Allen, 2005), atuou, mais recentemente, n"O retorno de Mary Poppins" (2018). Em "A Livraria", suas expressões silenciosas e contundentes, sua contenção típica do povo Inglês, emprestam à personagem as tintas necessárias à perseverança frente às dificuldades que irá encontrar em seu pequeno negócio de venda de livros,

Muitos filmes interessantes abordam histórias de cidades pequenas, cheias de segredos de alcova, onde algum "forasteiro" chega com algum "produto" que modificará a moral dos bons costumes privados e públicos. Nessas histórias, o estrangeiro é igualmente transformado pelo novo ambiente em que passa a viver. "Chocolate" (2000), com Juliete Binoche, pode ser um exemplo. A personagem, com sua capa vermelha e sua doceria, irá mesclar o amargo do provincianismo dos habitantes. "Bagdad Café" (1987) é outro exemplo; duas mulheres, uma lanchonete e a troca de experiências de solidão e aprendizado.
Um livro pode mudar a vida de alguém. Um personagem. Um texto. Um poema. E alguns belos filmes também falam dessa magia transformadora: "Balzac e a Costureirinha Chinesa" (2002), "As Horas" (2002), "O Clube de Leitura de Jane Austen" (2002) e a recente produção "Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" (2018), só para citar alguns.
Em "A Livraria" essa mudança não acontece, pela rigidez dos seus habitantes, à exceção de Mr. Brundish (Bill Nighy, de "Simplesmente Amor", 2003) — um dito viúvo, excluído deliberadamente por não aguentar os melindres do lugar — e de Christine, uma garotinha carismática e de personalidade emblemática, que se torna ajudante de Florence na loja e fará parte de um desfecho crucial e revelador.

No filme, os livros são personagens à parte. Passeiam pela tela os clássicos "Fahrenheit 451", as obras de Oscar Wilde, a poesia de Yeats e os preferidos de Mr Brundish – Ray Bradbury, depois que recebeu o exemplar da história da perseguição aos livros. A inclusão de "Fahrenheit" é assim premonitória no enredo, pois Florence também será perseguida, dessa vez por Violet, e os livros terão também um destino surpreendente.

"A Livraria" é um filme silencioso. Nele, ficamos a contemplar, junto com Florence, as águas, os barcos e as pequenas estradas que rodopiam pelo belo cenário de Hardborough. Fisgam o olhar a casa afastada de Mr, Brundish e a movimentação dos barcos pesqueiros de Mr Raven, que prefere a vida real à vida fantasiosa dos livros.
O filme também enfoca os costumes, desfilados e destilados pelo cinismo de Violet, marcados na arrogância e no caráter duvidoso de Milo (jornalista da BBC), incrustados na astúcia de Christine, na tacanhice do gerente do banco, que dorme na terceira página de qualquer livro, e no cinismo do abuso de poder, disfarçado de formalidade. É uma história sobre “exterminadores” e “exterminados”, duelo estabelecido desde quando Florence chega a Hardborough, e assim como os barcos do lugarejo, um dia terá os ventos soprando nas adversidades.
Mas a coragem de Florence? Terá consequências. Ou seguidores! Aquela coragem que os livros podem despertar em algumas pessoas que leem e veem além do horizonte. Nem que ele seja perdido. Mas só por um tempo...

Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora