O Poder, ah, o Poder ... O Poder e sua força irresistível, seu fascínio desarrazoado e alucinante. O labirinto psicológico que o envolve, os sentimentos que suscita e que Shakespeare genialmente dissecou tão bem – e para sempre – em Hamlet, Macbeth, Rei Lear e Otelo, por exemplo.

Conta-se que quando vieram a público os cinco primeiros volumes desses discursos escritos por outros, vários getulistas imortais da ABL, por iniciativa própria, se assanharam para levar o presidente para a Academia. Foram até ele discutir o assunto palpitante. Getúlio foi honesto e disse-lhes não poder aceitar a honrosa oferta por não ser um homem de letras. Em sua opinião, não ficaria bem ele se candidatar. Os sôfregos acadêmicos não contaram conversa: apresentaram logo uma proposta de reforma dos estatutos, de modo que uma candidatura pudesse ser apresentada não apenas pelo candidato mas também por iniciativa de, no mínimo, dez imortais. E assim foi feito. E assim Getúlio foi eleito, quase contra sua vontade, revogando-se em seguida a oportunista reforma estatutária arquitetada (e executada) só para beneficiá-lo.

Apesar do apoio de vários amigos, sabe-se que JK foi derrotado. Fala-se que o governo militar pressionou a Academia contra o ex-presidente, prometendo à instituição o empréstimo com que depois foi construído o imenso edifício ao lado do Petit Trianon e que lhe assegurou independência financeira para sempre. É de se perguntar: neste mundo em que vivemos, poderia Juscelino enfrentar adversários munidos de argumentos tão convincentes?
Tais fatos se passaram na ABL como poderiam ter ocorrido em outro lugar. O jogo e as regras seriam iguais. A questão é que Juscelino possuía a glória de Quéops, Quefren e Miquerinos, mas faltava-lhe naquela disputa o principal: o poder que vale, o poder que pode, o poder do Poder.
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB