Vou-me embora para Ouro Velho, não é que lá tenha rei, nem mulher que já não quero, nem cama que escolherei. Vou-me embora para Ouro Velho!... É que até o meado da semana (já não se sabe hoje) Ouro Velho vacilava entre as quatro das nossas 223 cidades onde os venenos letais da globalização não haviam ainda soprado.

— Isso é bode, Seu Marinho? – perguntaram, vendo-o passar de couro de bode às costas.
— É não, é couro.
— O couro é seu?
— Não, é do bode.
— É não, é couro.
— O couro é seu?
— Não, é do bode.
Há décadas, com Ouro Velho se iniciando nas rodas de tevê em preto e branco, fui empapar uma coalhada das de trinchar na casa de Edson Melo, sogro de José Ferreira Ramos, hoje todos com Deus, no céu dali mesmo. Sim, porque segundo esse Antônio Marinho, famoso de espírito, “viva-se onde viver, morra-se onde morrer, nunca se sai de Boi Velho”. Era Boi Velho, Zé Ramos, prefeito, que trocou o boi pelo ouro, por amor a Beta, sua mulher, filha de Edson.
Nascido pertinho dali, no Camalaú, com irmã no convento, meu amigo saudoso entendeu de ser padre e se fazer no latim do Seminário, isso nos anos 50. Anos lendários, por que não? Zé Américo no governo, Getúlio saindo da vida para a História, JK virando o motor do Brasil e adentrando nele, a Copa de 58 se desforrando com sobra da de 1950, a Paraíba implantando sua Universidade. E o latim de Zé, do original da Suma Teológica, fazendo-o escadear, mérito após mérito, de chefe de redação, juiz, prefeito, ao ordenador pioneiro dos cursos universitários, encerrando a carreira e a vida de conselheiro do MEC, em Brasília.

Mesmo sozinho, sem Zé, tenho de ir para Ouro Velho, não sei se me deixam entrar.
Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL