O Esial era um edifício de dois andares que olhava para a Praça da Bandeira de Campina Grande e que não sei se ainda está de pé. Eu descia por uma das ladeiras do Róger, e de um alto-falante que propagava um açougue do bairro apareceu-me o velho edifício. Não ali na rua, mas no meu juízo.
Diziam, em meu começo de vida, que eu não tinha o juízo certo, um aruá de estrada. Talvez tivessem razão. Eu via coisas que os grandes não viam.

“Vai, boiadeiro, que a noite já vem...” Os acordes gerando muito mais que um canto, muito mais que um poema – o tom de um povo, um pôr de sol dentro de nós. Não era a dor do amor que se havia perdido, era a voz da terra, o duelo trágico dos centauros euclidianos transpostos do ar fumegante, dos caminhos traiçoeiros, dos cactos entrançados, das mordidas de cobra e das orações fortes – como reza Alcides Carneiro - para o timbre de voz de uma nação dentro da outra.
O rio Pajeú vai bater no São Francisco e o rio São Francisco vai bater no meio do mar. Luiz Lua, como no êxodo de Moisés, fazendo esse redemoinho de águas e de mundos. O fole se apodera de forças míticas para estancar a carreira do rio e mandar o Brasil ir, o Nordeste ir, o Brasil do São Francisco, o Brasil do Nordeste”
“O Brasil vai, vai, vai...”

Reunido a essa voz de Exu, é o apertar-da-hora de todo o Nordeste, dos picos mal-assombrados das Sete Cidades às planícies de xique-xique do sertão baiano. Nordeste de nove bandeiras distintas numa só voz comovedora. Uma voz de nação, de povo.
Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL