O bom escritor é aquele que sugere mais do que diz. O que esconde suas ideias nas entrelinhas e deixa o leitor mergulhar para ir buscar os sentidos escondidos pela estrutura aparente. Na poesia, pelas suas qualidades intrínsecas, como a concisão e a elipse, a sugestão é mais recorrente do que na prosa, o que não significa que o prosador – contista, novelista ou romancista – se exima de sua utilização. Constato um dos belos exemplos de sugestão em poesia, justamente, em uma estrofe do poema “Tristezas de um Quarto Minguante”, de Augusto dos Anjos, cujos elementos descritivos e narrativos o aproximam da prosa.

“Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.”
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.”
A estrofe é nitidamente prosaica, como podemos observar pelo seu vocabulário denotando a miudeza trivial de um quarto de dormir: gancho, chapéu, corda, lençóis. O tratamento que se dá a esses elementos é que os faz poéticos: os lençóis balançado numa corda, lembrando mortalhas, incomodam o eu-lírico, preso num ambiente angustiante de um quarto de dormir que, à medida que “a lua magra” (estrofe 2, verso 6) faz-se mais minguante, ele igualmente míngua. O incômodo é menos por lembrar a morte do que pela sugestão de suicídio por enforcamento. Ideia prontamente recusada, com a resolução de desmanchar “o amontoamento dos lençóis”, remonta a “Monólogo de uma Sombra”, por o eu entender que o suicídio é um dos “martírios das criaturas”, (estrofe 28, versos 163-169).

Em duas passagens de Dom Casmurro, Machado diz da condição social de Capitu e de Bento Santiago. A de Capitu por um texto sugestivo in praesentia e a de Bento, cuja sugestão vem in absentia. Nas mãos de um escritor qualquer, a situação social que separa as duas crianças seria revelada de maneira simplória e direta, dizendo-as uma rica e bem de vida, Bento, e outra pobre, Capitu. Os dois trechos se encontram distanciados, mas retomando o mesmo tema. O primeiro está no Capítulo XIII – Capitu:
Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

Vejamos o outro trecho, pertencente ao Capítulo XXXII – Olhos de Ressaca:
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares...

Os últimos trechos pertencem ao livro Le ventre de Paris (O ventre de Paris, 1873), romance de Émile Zola. O primeiro trecho (Capítulo II), mais do que os dois anteriores de Machado de Assis, se tivesse caído nas mãos de um escritor inabilidoso seria um verdadeiro desastre. Como não sou romancista, apresentarei o trecho na sua língua original, seguido de uma tradução operacional minha, assim, os que conhecem a língua francesa poderão fruir melhor o texto:
“Lisa, debout, mangeait un morceau de boudin tout chaud, qu’elle mordait à petits coups de dents, écartant ses belles lèvres pour ne pas les brûler; et le bout noir s’en allait peu à peu dans tout ce rose.”
“Lisa, de pé, comia um pedaço de boudin muito quente, que ela mordia a pequenas dentadas, separando os lábios, para não os queimar; e o pedaço negro desaparecia, pouco a pouco, em todo aquele rosa.”
“Lisa, de pé, comia um pedaço de boudin muito quente, que ela mordia a pequenas dentadas, separando os lábios, para não os queimar; e o pedaço negro desaparecia, pouco a pouco, em todo aquele rosa.”

O romance, na sua filiação naturalista, embora não se limite ao programa dessa escola literária, contribui, ao longo de sua narrativa, com o apelo sensorial da sinestesia, em que entram os odores quentes, gordurosos e picantes das salsichas e linguiças, tanto quanto o cheiro acre e marinho dos peixes, vendidos nos Halles, o grande mercado parisiense, como o que se impregna pelo corpo da Bela Normanda, a vendedora de peixe (Capítulo III):
“C’était un parfum persistant, attaché à la peau d’une finesse de soie, un suint de marée coulant des seins superbes, des bras royaux, de la taille souple, mettant um arôme rude dans son odeur de femme.”
“Era um perfume persistente, pregado na pele de uma fineza de seda, um suor gorduroso de maré escoando dos seios soberbos, dos braços de rainha, do talhe flexível, deixando um aroma rude no seu cheiro de mulher.”
“Era um perfume persistente, pregado na pele de uma fineza de seda, um suor gorduroso de maré escoando dos seios soberbos, dos braços de rainha, do talhe flexível, deixando um aroma rude no seu cheiro de mulher.”

“Depuis un quart d’heure qu’il était [Marjolin] dans le sous-sol avec la belle Lisa, ce fumet, cette chaleur de bêtes vivantes le grisait.”
“Depois de um quarto de hora que ele estava no subsolo com a bela Lisa, esse odor, esse calor de bestas vivas o embriagava.”
“Depois de um quarto de hora que ele estava no subsolo com a bela Lisa, esse odor, esse calor de bestas vivas o embriagava.”
Como dissemos, anteriormente, nas mãos de um escritor inábil, o flagrante revelado pelo trecho citado, em que Lisa come um pedaço de boudin, e mesmo o acima poderiam descambar para o mau gosto, com um viés pornográfico. Nesse último caso, a embriaguez provocada pela pouca circulação de um ar viciado se tornaria excitação e faria assomar as bestas vivas que, saídas do âmbito das aves, se fixariam apenas nas duas pessoas ali presentes.
O duplo sentido de um quarto minguante, que reflete uma angústia existencial; o olhar amoroso, que desvia a atenção da classe social; a ambiguidade de situações sensoriais, que levam à sensualidade e ao erotismo, são recursos estilísticos que ocultam sentidos e, ao mesmo tempo, os revelam, quando o leitor se sente instigado a ir além da horizontalidade do texto. Da meia luz do quarto ao ambiente escuro e sinestésico de um porão de aves, passando pelo reflexo de um espelhinho de pataca, a lição que permanece é que importa não o que se escreve, mas como se escreve. E isto serve para a leitura.
Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL