Os manuais de redação dizem que escrever bem é evitar lugares-comuns. Nada compromete mais o estilo do que o uso de expressões batidas, do arroz de festa linguístico que nada acrescenta à expressão. Mas não é fácil fugir ao clichê. O leitor terá notado que acabei de usar um – “arroz de festa”. E por que é tão difícil escapar dessas fórmulas?

Nelson Rodrigues dizia que seu maior achado era a repetição. Fiel a isso, recheava seus textos com expressões que os leitores já sabiam de cor. Tanto nas crônicas quanto nos romances, deparamo-nos a todo momento com referências à “ricaça das narinas de cadáver”, ao “Palhares, o pulha que beijou a cunhada”, ao “Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, ao “sol de rachar catedrais”. São imagens criadas pelo próprio Nelson, é certo, mas que perderam a novidade de tanto ser repetidas.
Nem por isto a sua prosa é menos sedutora. Pelo contrário, lemos o pernambucano com uma espécie de prazer oposto ao que nos propicia, por exemplo, um Guimarães Rosa. Lemos para nos deparar com o mesmo, o conhecido, o quase-igual. Lemos para gozar daquele “prazer de reencontro” de que nos fala Freud.
Uma boa explicação para o sucesso dos clichês encontro na página 199 do romance “O caçador de pipas”. Vale a pena transcrever a passagem:

Kaled Hosseini apresenta bem a questão. O clichê funciona porque é preciso, ou seja, exato. A precisão faz com que muitas vezes o escolhamos a despeito da sua natureza de lugar-comum. Ele ocorre não por preguiça do pensamento, ou carência vocabular, mar por naquele momento não nos ocorrer algo mais expressivo.
Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor