Pode ser avistada na varanda do andar mediano do edifício. Pela manhã, consumindo o sol ainda frio, a olhar a paisagem. Bem amadurecida, difícil avaliar seu enquadramento etário.

A convidada para admirar a paisagem urbana é ligada vinte e cinco horas e um minuto na tela do zapzap. Faz que olha (não quer desagradar a, digamos, avó) indiferente ao deslumbre exterior.
A mulher, como ia escrevendo, foi apelidada de Hosana – me informou um frequentador de praça. O porquê do nome? No andamento litúrgico é cantado um hino com a expressão.

Muitas pessoas das proximidades, moradoras de apartamentos fronteiriços, ou mesmo quem transita, episodicamente, pela rua, olha a mulher, a Hosana falada, como se fosse um destaque, uma mascote, e ninguém explica a razão. Vemos com naturalidade gente debruçada nos peitoris de outros edifícios.
Procurei investigar melhor o fato. Por sorte, deparei-me com um senhor calvo, a barriga à mostra, fumando seu charuto de aposentado. Coincidentemente, um filho solteirão da amiga Hosana. Cheio de emoção transbordante numa tímida lágrima enxugada na ponta da manga, gaguejou e me contou tudo: a personagem, sua mãe, desejava ser aeromoça. Não realizou seu sonho. Na velhice dela, comemoramos seus oitenta anos, presenteando-a com o apartamento. Vive sua fantasia, sobrevoando com a vista parca os arredores. Todavia, reclama: “Aqui é baixo, preparar-se para o pouso, voo rasante...”
José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista