O tal do eu, primeira pessoa do singular, é tão complicado na vida como na escrita. Salvo os vaidosos exacerbados ou os megalomaníacos patológicos, normalmente as pessoas têm um certo pudor, uma certa parcimônia no uso do pronome eu. É comum um certo temor de parecermos, aos olhos dos outros, alguém autocentrado, que só enxerga o próprio umbigo. E, pensando bem, é bom que seja assim, já que costumamos, nós próprios, rejeitar os que se comportam dessa maneira reprovável. Os europeus educados são muito bons nessa arte civilizada de ocultação do eu, principalmente, creio, os ingleses, talvez a gente mais discreta do planeta. Um inglês de verdade jamais demonstra em público suas emoções, ou seja, jamais escancara o eu profundo publicamente. Isso fará bem ao corpo e à alma? Não sei. Mas que parece polido, parece, pelo menos nos livros e nos filmes.

Todo esse arrodeio para chegar no problema da crônica, esse gênero literário e jornalístico inevitavelmente centrado no eu do cronista, por menor que seja seu ego. O ficcionista, seja no conto ou no romance, pode esconder-se – e quase sempre o faz – por trás do narrador ou de algum outro personagem. Nem sempre é fácil identificá-lo, como bem sabem os críticos. Isso deve ser apreciado pelos autores que cultivam o pudor de se mostrar sem disfarces. Mas fico pensando nos poetas. Pois é praticamente impossível para eles ocultarem-se nos poemas.

Pois é, o cronista. Poderá haver crônica sem a presença pessoal de quem a escreve? Sem o eu crônico e agudo do autor? Acho difícil, para dizer o mínimo. Pois o cronista tem de se expor, tem de opinar, tem de tomar partido contra ou a favor, de preferência fora da seara política partidária e ideológica, para não ficar cacete e previsível. O leitor espera isso dele: que mostre o rosto, mesmo com o risco eventual de levar um bofete. Mas que apareça, de preferência na primeira pessoa do singular, munido de identidade e CPF.
Affonso Romano de Sant’Anna, mestre do gênero, escreveu (numa crônica) que “O cronista é um jornalista a quem é permitido escrever na primeira pessoa. Mas esse ‘eu’ é um ‘eu’ de utilidade pública, como o ‘eu’ do escritor. No espaço da crônica há uma troca de intersubjetividades. Aí o leitor entra em outra frequência.”. É isso mesmo. Pois como poderia haver essa relação intersubjetiva se os sujeitos não assumem o seu eu particular e o explicitam?

Certo cronista, não lembro quem, recebeu um dia uma carta elogiosa de um leitor. Mas este lhe pedia encarecidamente para aliviar um pouco no uso do pronome eu. Vejam só. Talvez o cronista estivesse mesmo exagerando na egolatria. Ou não. Talvez o leitor estivesse apenas a fim de aporrinhá-lo. Acontece.
O fato é que a primeira pessoa do singular constitui uma prerrogativa inalienável dos cronistas. E dos amantes também. Pois as declarações de amor – assim como as crônicas – não admitem o sujeito oculto. E já que ninguém lembrou-se disso antes, lembro agora e aqui: que esse pronome mínimo seja logo inscrito como um direito fundamental na Constituição.
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB