As minhas tardes de sábado costumam proporcionar um prazer juvenil: jogar xadrez! Mas o termo é insuficiente para revelar a riqueza que a atividade lúdica encerra.

Lá para as tantas chegou Paulo Germano, futuro médico então, trazendo um jogo de peças e um tabuleiro. Ele nos ensinou as regras básicas, o movimento de cada peça, e foi dormir, deixando o jogo ao nosso alcance. Pra que fez isso!
Eu e Nino passamos o resto da noite, madrugada adentro, jogando xadrez. Manhã seguinte não deu outra coisa: ficamos os dois em 2ª época em história.
Desde então nunca mais deixei de jogar. Não com a frequência que eu gostaria, pois tenho família e profissão para dar atenção. Embora eu jogue muito, não passo de um capivara, que é o jogador de xadrez mais iniciante, diferente de um Mestre-FIDE (MF), ou Grande-Mestre (GM).

Foi quando uma tarde o urologista Anchieta Antas Filho me levou para conhecer o Clube Miramar de Xadrez. Aí me realizei!

O clube também é uma escola de xadrez, para alunos de todas as idades. Contém 20 tabuleiros, com seus respectivos jogos de peças e relógios. Além de um tabuleiro-mural, para dar aulas e fazer análises.

Depois que passei a frequentar, as tardes dos sábados passaram a ter um novo sentido para mim. Lá eu me esbaldo. Todos os sábados temos torneios, sendo que uma vez por mês é valendo título, premiação.
Quem está de fora do xadrez tem uma imagem diferente, um pouco rigorosa, pois só tem conhecimento dos campeonatos mundiais, onde o silêncio é sepulcral, rostos fechados, feições rígidas. Ninguém se diverte.

Ninguém consegue deixar de achar graça com a choradeira de Jorge porquê não foi premiado, nem com a cara de Valdeniza quando toma uma dama do adversário, uns brincando com os outros...!
Nas tardes de sábados é possível encontrarmos a bela tenente Rebeca, quando consegue conciliar as rondas com as tardes de folga no Clube de Xadrez, jogando “um bolão,” sendo páreo duro para qualquer enxadrista.
A presença do psicanalista chileno Dom Alejandro Telehoff jogando com Genivaldo dá um ar de sofisticação internacional ao Clube. A doçura constante de Targino, o único enxadrista que consegue perder uma partida sem ficar magoado com o adversário, é comovente.

Antes dos torneios podemos quebrar a cabeça tentando solucionar os problemas que Déo Souza sempre tem no bolso. Genildo é um dos primeiros a encontrar a solução.
Todos os sábados observamos a agilidade de Manassés e Fabiano organizando os torneios, com a assessoria de Túlio.
Lá não tem tempo ruim, não tem mal humor. O ambiente é o melhor possível. As figuras estão sempre alegres. Até Eudes Carioca, quando perde uma partida (e ele tem horror a perder!) não fica zangado.
Tudo isso entremeado por deliciosos bolos e outras guloseimas proporcionadas por Lili, dublê de intelectual e dona de casa. Um cafezinho delicioso, saindo de uma cafeteira asmática, gorgolejante. Um suco de limão que faz inveja aos limões sicilianos.

Pois quando acabar poderei voltar ao Clube Miramar de Xadrez, onde a alegria é pura. Não tem dinheiro que pague!
VIVA O XADREZ AO VIVO (no bom sentido, é claro)!
José Mário Espínola é médico e escritor