Era uma mesa de cozinha. Sempre forrada com uma toalha de plástico com desenhos de frutas bem coloridas. A luz da janela acentuava aquelas cores tão quentes quanto os móveis dos filmes de Almodóvar.

Conceição. Assim se chamava minha tia. Em homenagem à Virgem, mãe boníssima de tantas graças.
Quando da festa da padroeira em Areia, a mesma Conceição, eu me via olhando para aquela mulher-estátua tão bela. Seu manto azul e branco e um olhar que me assustava por parecer tão vivo. No 8 de dezembro ela saía às ruas, num desfile de tantas Marias, de tantas Ritas, descalças, com pedras na cabeça num sacrifício de muitas bênçãos, de terços dedinhados entre dedos calejados do invisível trabalho doméstico. A procissão caminhava pelas ruas de Areia formando um tapete-serpente de tantos fiéis dissipados entre rezas e cânticos. Ela triunfava no andor. Chorosa, como tantas mulheres que ali desfilavam pelas cruzes as quais seus filhos foram submetidos. Imaculada, como tantas que ali se projetavam, tentando se livrar das máculas que a vida lhes impôs. Piedosa, capaz de perdoar as falhas de seus filhos perdidos, suas filhas esgotadas de sonhos, os maridos que deitavam com outras que também se penitenciavam naquela procissão.

Conceição era enfermeira do hospital local. Viu nascer a tantas crianças. Viu muitos que ali chegaram em desespero e saíram na plenitude. Também viu a morte, companheira vigilante da vida, que vez em quando visitava leitos daquele hospital.
Quando eu adoecia e precisava de cuidados, lá estava ela ao lado de mamãe. Andava com seu estetoscópio e um termômetro, instrumentos que nunca me assustavam. Havia também uma caixa de metal, já esta meio assustadora. Tintilando lá dentro, algumas agulhas e uma seringa de vidro com êmbolo fosco. Quando minha tia abria aquela caixa, o cheiro do pavor invadia o quarto. Uma mistura de álcool com éter, aromas das agulhas atravessando pele e veias.

O destino é às vezes de uma crueldade torturante. A mesma mulher que curava foi acometida por um mal incurável. Eu ainda era um moleque e senti a ausência dela no meu cotidiano. Cadê aquela tia que me curava? Foi então que me levaram para falar com ela. Acamada e magrinha, mas sempre sorrindo. Cadê minha tia tão viva? Cadê a Virgem da Conceição? Fomos todos abandonados, então, submetidos a este destino que nos solapa daqueles que nos amam?
Eu fui transportado para o real, para a vida crua e de viés. Saí daquele quarto e vi que a casa toda estava escura. Havia silêncio e olhos baixos e mãos em prece e lágrimas lavando nossas dores. Saí pelo corredor daquela casa que naquele momento me pareceu tão longo. Cadê a caixa de metal e suas injeções mágicas? Cadê a medicina que diziam salvar vidas? Cadê a vida, afinal?

A luz estava diferente naquele dia. Entrava na janela em feixes que eu não sabia distinguir se eram luzes ou raios. No centro da cozinha aquela mesa. A mesma toalha de frutas coloridas estava ali. No canto daquela mesa, em meio à tantas cores, meu copo de leite ali repousava. Aquele copo que sempre me esperava toda vez que eu ia lá. Aquele copo de leite que ela sabia que era meu, que era do meu gosto. Naquele momento, toda dor de mim escorreu. Ali quietinho, sentado, tomei aquele leite tão bom, não por ser leite, mas por ser a oferta que minha tia Conceição sempre tinha para mim. Um alimento para a alma, para minha alma que repousou serena entre cores, luzes e silêncios.
Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor