Quando Zélia começou a namorar Jorge, a mãe dela disse que ele era um homem muito preparado, e que ela não estava à altura dele. Zélia contou a Jorge, que quis conhecer a futura sogra. Depois de um bom papo, Jorge perguntou a ela se ele merecia Zélia.

Imagino a sensação de estima que Zélia deve ter sentido por si mesma. O coração palpitando, as expectativas. Era 1945. Jorge já tinha lançado vários livros, e nesse ano foi o deputado mais votado por São Paulo e membro da Assembléia Nacional Constituinte, autor da lei de liberdade de culto religioso.
Num dos primeiros encontros Jorge chamou-a para jantar com um amigo. Era Pablo Neruda. Na volta, encheu o táxi com cravos vermelhos para ela. Numa crônica na Folha da Manhã, escreveu: “Te darei meu saveiro, para nele passeares, cantarei para teu sono sossegar. Te darei meu corpo para o afogares”.

“Jorge deu-me a mão e conduziu-me por mundos os mais distantes, os mais estranhos, os mais fantásticos”, escreveu ela. Eles moraram em São Paulo, no Rio, em Paris, em Praga, e, finalmente, em Salvador, na casa do Rio Vermelho, frequentada pelos nomes mais fascinantes da intelectualidade brasileira e mundial.
Certa vez alguém disse a Jorge: “Atrás de todo grande homem existe uma grande mulher”. Ele logo replicou: “Zélia nunca esteve atrás de mim. Esteve ao meu lado, e de mãos dadas”.
Rosa Aguiar é mestre em comunicação e jornalista