Era possível reconhecer nas letras uma certa impressão digital de cada pessoa. Um registro individual, a identidade de cada remetente nas curvas e traços da escrita. As cartas manuscritas e toda uma série de sentimentos. Da expectativa de sua chegada, nem sempre prevista, ao desvendar dos seus "segredos" contidos em palavras. A passagem do carteiro era uma festa. Os dias da chegada desse visitante ilustre sabia-se de cabeça.

Pelas cartas, notícias mais detalhadas dos parentes e amigos distantes. Os envelopes brancos com as bordas em pequenos traços verde-e-amarelo, ou azul-e-vermelho, eram símbolos reconhecíveis de várias gerações. As caixas dos Correios, hoje seres estranhos, quase extintos, peças de museu, eram outros pontos de apoio para se enviar as cartas. Fazia-se até abaixo assinado para pedir a instalação dessas estruturas em determinada localidade (para se instalarem orelhões, os abaixo-assinados eram mais frequentes).
Escrever a carta de próprio punho era uma arte. O ideal era não rabiscar, não rasurar.Claro, tais correspondências não possuíam a agilidade, a instantaneidade do mundo moderno dos e-mails, ou mais rápido ainda, das redes sociais, da vida on-line que portamos na palma da mão em caixinhas falantes chamadas celulares e, cujos conteúdos, apesar de possibilitar o encaminhamento de um volume impensável de dados (textos, fotos e áudios, tudo de uma vez) são efêmeros na velocidade do tempo que leva para serem enviados, recebidos e decifrados.
E desenvelopar uma carta era bem diferente que abrir uma conta, um boleto dos dias atuais. A correspondência era quase a possibilidade de tocar o remetente, assim como escrever e enviar a carta simbolizava encaminhar junto um pedaço do próprio corpo.
Sim, havia o cuidado para não deixar o envelope muito pesado. Isso porque se eles passassem do peso limite, numa determinada tabela, a tarifa sairia cara. E isso era contado em gramas.
Escrever a carta de próprio punho era uma arte. O ideal era não rabiscar, não rasurar. Por isso, elaborar o texto em rascunho tornava-se essencial, caprichar nos detalhes, numa escrita legível e bonita. Escrever carta muitas vezes era um exercício literário, de escriba, de criatividade, gesto de amor.

E, surpreso em reencontrar mensagens simples, mas cheias de recordações, corri e mandei uma mensagem pelo WhathApp, com fotos, e postei nos stories do Instagram marcando o remetente da época, que em poucos instantes respondeu. A tecnologia então mostrou sua força.
Mas, enviadas de tempos idos, são cartas que ligam o hoje, então futuro impensável à época. Guardadas por décadas, ao reabri-las se transformaram em máquinas do tempo. De repente, percebo que as cartas manuscritas continuam enviando mensagens, mais fortes, ligando passado e futuro ao que chamamos de presente. Foi um belo passeio temporal. Melhor registrar antes que o tempo, novamente, mastigue, triture e faça desaparecê-las...
Clóvis Roberto é jornalista e cronista