"Sub specie aeternitatis" - A expressão latina consta da Ethica, de Espinosa, e tem sido traduzida de diferentes maneiras. Há os que a entendem como “à luz da eternidade”, enquanto outros preferem “do ponto de vista da eternidade”, como o escritor Paulo Rónai. Pessoalmente, penso que as duas traduções são boas, pois expressam com razoável fidelidade o “espírito” da frase, isto é, uma perspectiva de vida eterna colocada como parâmetro, referencial ou contraponto à vida terrena dos homens.

Sabemos que a questão é antiga e que muito tem atormentado a humanidade ao longo dos séculos. Afinal, não é pouca coisa decidir-se sobre a existência ou não de uma dimensão pós-morte em que devamos prestar contas de nossos atos e obras nesta vida. Dá para imaginar que tal problema seja, mesmo que minimamente, colocado vez por outra na consciência de todos, inclusive daqueles que, de tão cínicos e maus, supomos não possui-la. E aí, nessa única vez que seja, resta instalado definitivamente o dilema fundamental: prestarei contas ou não, depois de morto?
Dostoiévski, a quem a questão do pecado sempre interessou, resumiu o mistério afirmando, em “Os irmãos Karamazov”, que “se Deus não existe, tudo é permitido”. Sim, porque só os que admitem, mesmo que apenas sob hipótese, a existência de Deus, podem aceitar uma dimensão pós-morte em que sejamos julgados pelo que fizemos enquanto vivos. O filósofo Luiz Felipe Pondé, estudioso do escritor russo, analisando a afirmação célebre, escreve que “Ela discute o fato de que, pouco importando sua crença, se Deus não existe, não há cobrança final sobre seus atos.

Muitas vezes tenho me surpreendido, nestes últimos tempos brasileiros, a refletir sobre certos personagens corruptos de nossa política, aparentemente – e creio mesmo que verdadeiramente – alheios a qualquer preocupação com o julgamento atual ou póstero de seus atos. Vê-se que esses tais não estão nem aí para o juízo humano ou divino, contanto que aumentem sempre mais suas riquezas e seus podres poderes. Poderia citar inúmeros nomes, todos conhecidos seus, caro leitor, mas para quê? Como se diz, em sentido oposto, não importa o santo, mas o milagre. Mas é tanto cinismo, tanta cara-de-pau, que é inevitável pensar: essa gente não teme nada, nem neste mundo nem alhures.
Tudo isso me leva inevitavelmente a meditar – sem nenhum proselitismo - sobre a importância moral das religiões, enquanto pregadoras do Bem. Fico pensando: exista Deus ou não, são essas crenças indispensáveis à humanidade, na medida em que formam moralmente as pessoas e estabelecem modelos éticos a seguir. Nesse sentido, pode-se dizer que as religiões são civilizatórias. Por isso Dostoiévski afirmou que sem Deus tudo é permitido, inclusive o Mal, em todas as suas vestes. É o que certamente devem pensar os ímpios de toda espécie, para os quais Deus e sua magistratura não representam nenhuma preocupação.

O fato é que para a imensa maioria a bondade e a retidão só se impõem se se levar em conta “o ponto de vista da eternidade”, que nos amedronta e orienta, com a perspectiva futura de um julgamento. Não fosse isso, a tendência seria considerar que tudo é permitido. E aí é muito possível que tomássemos o mesmo rumo dos maus que desprezamos, aqueles para cujos corações a impunidade, atual e futura, não é apenas uma possibilidade, mas uma certeza.
É evidente que para alguns poucos a ausência de Deus não constitui obstáculo para uma vida ética. Isto é importante. Mas é também certo que para os demais esse tal de “sub specie aeternitatis” impede – ou dificulta – que vivamos como brutos, apenas para comer, beber e nos locupletarmos.
Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB