Já morando no atual apartamento, pensávamos que bichos seriam páginas viradas. Mas não contávamos com o amor que nossos filhos têm por eles e por mim. E me deram no Natal de 2006 uma linda salsichinha (dachshund) preta e marrom: Maria Luiza Pires de Sá Espínola. Ou Merilú, como ela gostava de ser chamada.

Ela era louca por bolas. Adorava que as atirássemos para ela ir buscar. E quanto mais difícil, melhor para ela. Quando as escondíamos, ela farejava até achar. E nunca deixava de encontrar! Tinha várias, uma verdadeira coleção de bolas.
Ela dormia agarrada a uma bola. Era tão inteligente que “treinava” os visitantes para atirarem a bola para ela. Ela trazia a bola, depositava no nos pés e olhava para a cara do escolhido, como que dizendo: “Atire!” Seu olhar, a alegria demonstrada, a expectativa nos rosto, tornava incontrolável o desejo de jogarmos a bola.
Depois dela veio Minie, outra linda salsichinha avermelhada que Ilma ganhou de seu paciente, Wellington. Porém ela é dócil demais, quieta, com complexo de tatu (vive entocada!).
E no penúltimo Natal eu ganhei de Ana Laura a mais recente companhia: Merilú II - O Retorno. É outra linda dachshund, desta vez marrom-claro. Pois esta veio virada, bagunceira toda. Ela é sandalicida: não pode ver um chinelo dando sopa. Vive aperreando a pobre da Minie e as gatas.

Além delas duas nós criamos Lina e Lince, duas gatas mui belas e muito inteligentes, também. As duas se completam, como duas estrelas binárias: uma em torno da outra.
Passam a noite vigiando o que a outra está fazendo, para atocaiar e dar um susto. Lina Rossa é a dona da casa. Ela é a maestrina dos outros bichos, que só fazem o que ela permite.

As quatro gravitam em torno de mim. Neste exato momento estou escrevendo cercado por Minie (dormindo embaixo da estante), Merilú (no sofá), Lince (na mesa de xadrez) e Lina deitada atrás do monitor!
E por falar em monitor, nós ganhamos um novo vizinho: um marimbondo, que Ângela Bezerra de Castro batizou de Seu Ferrão, construiu seis casinhas, sendo três exatamente na face posterior do monitor!

Com exceção de Seu Ferrão, todos os outros bichinhos passaram pelas mãos de Ana Laura. Ela que “voluntariamente” me deu as quatro! Ainda hoje ela fala que é a dona, e que elas estão apenas sob a minha tutela. Mas trata-se de uma espécie de guarda-compartilhada.
Depois de tantas histórias, agora vocês estão sabendo como é a mania de quem é louco por bichos! O que é amar tanto essas criaturinhas. A minha irmã Ana Cândida, por exemplo, evita abrir uma torneira de pia quando vê que isso pode vir a provocar a morte de formiguinhas. Assim somos todos nós, filhos e netos de Chico Espínola.

Ao longo da vida sempre me debrucei sobre o comportamento dos seres que integram a natureza. Observei, por exemplo, que o ser humano com freqüência apresenta comportamento que possa ser classificado como crueldade, que é um desvio de caráter.
Isto raramente é observado na natureza. Talvez em alguns primatas possamos observar maus tratos ou até mesmo crueldade com criaturas inferiores, muitas vezes da própria espécie. Mas isso não comum. Encontramos muito mais exemplos de solidariedade entre os animais.

O homem praticou e ainda pratica bestialidades tais como matar um semelhante usando uma serra elétrica. Queimar em fogueira um ser vivo, às vezes até em nome de Deus. Torturar de todas as formas possíveis e inimagináveis, até mesmo como política de Estado.
Por tudo isso é que eu acho que quem realmente representa a imagem e semelhança de Deus são, isso sim, os bichinhos da natureza!
José Mário Espínola é médico e escritor