A máquina de costura nova, em que as tias cosiam e emendavam suas peças... Conversavam com a vida mansa, traziam o tempo do sítio, as praias frequentadas por crianças nuas, sacudindo entre as espumas que se derramavam sobre a areia branca.

Fora, os meninos brincavam. Não havia TV. O som do rádio lançando os sucessos do carnaval, logo depois que passava a entrada do Ano Novo. Palavreado ameno, cantigas recordadas, recortadas recordações que se iam chuleando, emendando a saudade aplicada na toalha ou o tricô já pronto descansando na cadeira de balanço.
Costuravam o tempo como se ele fosse mágico. Tocavam os tecidos, a seda escorregadia, o tafetá, o linho puro e sentiam a textura do temporal. Chovia muito no inverno e elas rodeando a máquina de costura, cada vez mais aconchegadas, os fios enfiados na agulha, o frio entrando pelas frestas das janelas mal fechadas, uma das tias, sem enxergar direito, os óculos trincados nas lentes, lutando por enfiar a linha corrente na agulha.
A corrente das bátegas pelos chãos nus do oitão, das escadarias, da rua num alvoroço de liberdade, a cobrir as pedras carunchadas do leito onde dormiam paralelepípedos mal colocados, sem simetrias cuidadas.

Pode parecer algo trivial bordar em máquina de costura. Transborda, porém, a recordação daqueles dias idos e vividos dentro de uma ingenuidade e pureza com que elas se esmeravam em cuidar das costuras nada profissionais, na utopia de reter entre os dedos o abstrato tempo de paz, risadas naturais como o perfume da lavanda usada por elas. Um cheiro forte de serenidade na suave fragrância que exalavam.
José Leite Guerra é bacharelem direito, poeta e cronista