a cidade subiu a ladeira
com jeito de quem ia ali perto
e voltava
mas criou asa
voou
e nunca mais deu o ar da graça
2 praça joão pessoa
no centro da praça
que os poderes humanos reúne
o austero presidente em bronze
morre todo dia outra vez
- de vergonha
3 trincheiras
os sobrados mortos
as casas arruinadas
são a prova viva
de que dessa vida
não se leva nada
4 jaguaribe
em suas ruas mais calmas
o progresso não mudou nada
e as famílias inda põem
cadeiras na calçada
5 cruz das armas
o tempo passou sem que nada ocorresse
nem dentro nem fora do ordinário
que alterasse seu irresistível
destino proletário
6 lagoa
as palmeiras imperiais permanecem
como sentinelas de um museu:
guardam memórias que restem
do que abaixo delas
se deu 7 roger
a paz do colégio de freiras
se espalha pela vizinhança
e ali o barulho do mundo
chega apenas na lembrança
8 tambiá
tudo se define pelo não:
não mais moradias
não mais o silêncio vegetal
e o cheiro noturno dos jasmins
que inundava o ar
já não há
9 miramar
no alto como em altar
permanece a indecisão
de ser cidade ou mar:
confusão
10 tambaú
na praia que era longe e plácida
a gente ávida atravancou
de carros e prédios altos
a beira do mar mais verde que azul
e agora brinca (sofre) de ser
carioca zona sul