Designado para fazer a reportagem dos debates da Assembleia Legislativa, relatar para os leitores o curso das discussões levadas a efeito pelos nossos parlamentares, observar tanto o entusiasmo de eloquência oratória dos deputados, como o ardor aclamatório dos frequentadores das galerias, tornou-se esse trabalho mais uma experiência de minha vida do jornal, mais um conhecimento travado com as múltiplas facetas da imprensa.

Tratava-se de um velho funcionário público aposentado, trazendo no semblante desbotado pela vida a tortura e os restos de suas últimas decepções. O curioso personagem nunca faltou, quer fizesse chuva, quer fizesse sol, a uma das reuniões da Assembleia. Apesar da madureza de sua idade, apesar da severidade doentia de seu aspecto, entremostrava sempre um certo fulgor de encantamento no olhar, de felicidade, de esperança, mesmo quando da tribuna, um dos parlamentares dissertava sobre os problemas do povo, defendia um tema qualquer.
Então, eu via, emocionado, o homem sorrir satisfeito, olhar fraternalmente para os companheiros, erguer o braço num extravasamento de entusiasmo indiferente ao seu reumatismo e às dificuldades de sua vida de fracassado. Mas, o que mais me comovia e que mais me enchia de tristeza era quando a sessão decorria sem anormalidade, sem tumulto oratório, numa placidez de lago suíço, pois, nesse momento, o funcionário pegava de seu guarda-chuva, ajeitava o chapéu na cabeça branca e rumava, triste, desconsolado, em direção a um banco de praça, a um café de segunda classe, ou então ia descansar, repousar os nervos exaustos, em sua modesta residência de subúrbio.
Ninguém notava a saída do pobre ex-servidor público. Ninguém lhe percebia o desânimo no rosto. A sessão continuava sem novidade, passava-se à ordem do dia, às sisudas aprovações dos projetos e resoluções, enquanto, o espectador infalível das galerias ia pelas ruas, por entre a multidão indiferente.

Sem filhos, sem amigos, sem conforto, nada mais esperava ele do mundo. Pouco importava que um discurso abrisse um lampejo de esperança, coisa que ele já perdera, há muito tempo. Ia à Assembleia somente para matar os poucos anos que lhe restavam. Enquanto os outros iam ao cinema, só tinha, graças a esse regime democrático, as galerias para encher o vazio de sua existência árida.
Enquanto outros, os jovens, operários e homens, em pleno exercício da função pública, procuravam a Assembleia para melhor medirem os acontecimentos das coisas públicas, para melhor se informarem da política estadual, o velho amanuense aposentado só tinha um único interesse — ter para onde ir, gozar ao som da oratória parlamentar, derradeiros instantes de sua insípida existência...
* crônica de 1947, escrita no Jornal A União
Carlos Romero é patrono deste ambiente de leitura (in memorian)
