Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma
Será José Américo?, poderá perguntar alguém mais apressado. Não, caro leitor, José Américo era o “solitário” de Tambaú e vivia, segundo Biu Ramos, na solidão mais povoada do mundo, tantas eram as visitas desejáveis e indesejáveis que recebia em seu célebre casarão praieiro. Quando o político se recolheu em voluntário exílio à beira-mar pessoense, toda aquela praia,
Cabo Branco e Tambaú ▪️ Fonte: Revista Manchete/Biblioteca Nacional (1965)
pouco povoada à época, era Tambaú, não havia ainda a denominação de Cabo Branco para o trecho que vai do final da Epitácio (busto de Tamandaré) até a Ponta do Seixas, onde se situa o ponto mais oriental das Américas, no qual “o sol nasce primeiro”.
Tento compensar a surdez com a leitura. Mas não é fácil a quem viveu e aprendeu mais de ouvir e conversar do que mesmo de ler. O que mais aprendi veio pronto do saber do outro, dos que a eles me acostei desde o Pio XI, com as peremptas lições do livro e do homem, vindas do meu professor de Admissão, e pelos mestres que o dom da amizade vem me facultando até hoje. Aqui e ali, desde que escrevo, eles voltam ao enfado provinciano destas curtas linhas.
Anos atrás assistimos à excelente sátira espanhola Toc Toc, dirigida por Vicente Villanueva, lançada em 2017. A comédia conta a história de um psiquiatra de Madrid, especialista em transtorno obsessivo-compulsivo – TOC.
“O tempo resiste a tudo, mas as Pirâmides resistem ao tempo.”
Provérbio egípcio
Sobre o Egito, do antigo nome Hwt-Ka-Ptah (Mansão do Espírito de Ptah*), denominação original
*Ptah era um dos deuses primordiais, dos mais poderosos da mitologia egípcia, cultuado como o artesão divino, criador do universo, dos deuses e patrono dos construtores, escultores e arquitetos, representado como um homem mumificado, de pele verde, segurando um cetro composto pelos símbolos de vida (Ankh), poder (Was) e estabilidade (Djed)
Está chovendo na horta do Cinema Nacional. Vivenciamos nos anos 20 do século XXI a renovação de uma estratégia cinematográfica, que se irradia nas experiências estéticas, poéticas e catárticas, oferecendo biscoitos finos para as massas. Não é de pouca monta a reconciliação do cinema brasileiro com a audiência nacional e sua ressonância no mercado mundial. O Brasil tem se projetado bem, como demonstram as premiações nos Festivais de Cannes, Berlim,
Em Esboço em Pedra e Sonho, Marília Arnaud reafirma sua vocação para sondar as camadas subterrâneas da experiência humana, erguendo uma narrativa que oscila entre a densidade da matéria e a volatilidade do desejo. O próprio título já instaura o eixo simbólico fundamental da obra: a tensão entre o que pesa e o que flutua, entre a memória cristalizada na pedra e o sonho que a corrói por dentro, como água paciente. Trata-se de um romance (ou novela, conforme a leitura estrutural que se queira adotar) em que o drama íntimo das personagens se projeta como arquitetura — cada gesto é um bloco, cada silêncio, uma fenda.
"O Pau D’arco é um beijo do sol em árvore favorita"
José Américo de Almeida
Hoje, no caminho de sempre,
o inesperado me chamou pelo nome.
Entre o verde das árvores
e os carros em disparada,
um ipê amarelo estava inteiro em flor
- silencioso, luminoso, absoluto.
Não gritava, não interrompia o trânsito
e não pedia nada.
Apenas era.
Nada tenho contra quem lê um texto literário apenas pelo prazer de ler e expresse a sua opinião ou faz um comentário que, embora se queira crítico, não é. Em geral, a regra é esta: o prazer de ler, ainda que a arte não tenha como finalidade precípua proporcionar prazer, mas a de mexer com as nossas sensações. Arte é, tout court, estesia. Resulta daí a necessidade de se ler cada vez mais, pois sempre é melhor ter lido do que não ter lido. Se as leituras suscitam uma escrita, ótimo,
Definitivamente, esse foi o verão dos dublês de ricos. Tão marcante assim, só o verão da lata no Rio de Janeiro (1987), quando o navio Solano Star jogou fora milhares de latas com maconha, e elas boiaram até as areias das praias lotadas.
Ele é idoso, curvado, uma câmera pendurada no pescoço. Com um galho fino, entra no regatozinho que corre entre as pedras e afasta as folhas caídas que impedem o fluxo da corrente. Uma a uma. Sento no banco para observar a cena. Ele segue com muita calma. Horas depois, quando volto ao lugar, está sentado olhando a água escorrer entre as pedras.
Estou fortemente inclinado a acreditar em que o espírito liberto de Zé da Luz obteve licença divina para sobrevoar a poesia, os poetas, os escritores e a embevecida plateia que, na noite de 7 de março, lotou o Auditório da Prefeitura, em Pilar, no Baixo Vale do Rio Paraíba. Ocorriam, ali, recitais, afiliação de um novo membro e eventos outros que então abriam a programação dos
Uma vez um colega me perguntou, depois de ler um texto meu denunciando bandidagem, por que eu escrevia com raiva. Fiquei pensando em responder. A pergunta não era simples. Talvez porque quem lê imagine que a indignação é raiva mal disfarçada.
GD'Art
Mas eu não escrevo com raiva. Não tenho raiva de ninguém. Às vezes tenho raiva de mim mesmo, isso é verdade. O que sinto profundamente é outra coisa. O que sinto é indignação, ela que nasce quando observo certos comportamentos humanos. Uma indignação que, às vezes, chega a doer. Dói porque vejo atitudes que ferem aquilo que deveria sustentar a vida em sociedade: a ética pública. Dói porque algumas criaturas humanas, de baixas atitudes, conseguem ocupar espaços de poder na política, na Justiça e no Executivo. Não é um incômodo passageiro. É uma dor cívica que já dura quase os meus sessenta e dois anos. Uma dor de cidadão que observa o que acontece à sua volta.
Procissão
Voz que ecoa
Dos gestos invisíveis
Um povo em procissão
Passos lentos
cadência cativa
do corpo da humanidade
em marcha sobre a terra
do lugar nenhum
Somos um só
organismo vivo