Muito se tem falado sobre “ler por prazer” como se a literatura se prestasse apenas a uma filosofia hedonista. Essa concepção acrítica pode ser um desserviço ao ato de ler, acarretando ideias de que não é possível, ou o pior, não é preciso ensinar literatura. Entendo que a literatura propriamente dita não se ensina, mas visamos alertar sobre o quanto ela pode nos proporcionar em matéria de vida; as fantasias, os conflitos, o valor que o mundo literário congrega.
Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ferir a mãe, não estamos mais falando de ódio. Estamos falando de falência moral absoluta. De um lugar tão escuro que já não existe linguagem que explique. Só silêncio constrangido. Porque filhos não são extensão de vingança. Filhos são território neutro. Sagrado até para quem não acredita em nada. Aquele homem não quis matar duas crianças. Ele quis assassinar emocionalmente uma mulher… usando o que ela tinha de mais vivo. Isso não é sobre separação. Não é sobre disputa. Não é sobre guarda ou ciúme. É sobre posse. Sobre a incapacidade de aceitar que o outro é livre.
Jornalista Flavio Ferraz (Instagram)
A definição de feminicídio vicário é: “uma forma extrema de violência de gênero em que o agressor mata filhos, enteados(as), ou outras pessoas próximas à mulher (como animais de estimação) com o objetivo específico de causar sofrimento, dor insuportável e punição à mãe, agindo como um ‘feminicídio indireto’”. É uma ferramenta de controle, poder e vingança utilizada após o fim do relacionamento ou para subjugar a mulher, atingindo-a “onde mais dói”.
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Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem” (Agência Brasil).
O olhar silencioso do monge oblato beneditino, vestido com hábito escuro, sentado na estala, usando cogula durante a reza do Ofício Divino e na execução de cânticos gregorianos no Mosteiro de São Bento de Olinda, ficou como a última lembrança de Dom Marcelo Carvalheira.
A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.
Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco.
Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha de Éris, deusa da Discórdia, Lete encarna não apenas a perda da memória, mas uma dimensão ontológica do ser humano: o esquecimento como condição da existência mortal e como limite entre vida, morte e renascimento.
Com todo respeito, passei o carnaval com ela. Mais propriamente com o novo livro da escritora santista-pessoense, Recapitulação (Editora 34, São Paulo, 2025), conjunto de 12 contos muito criativos, que têm como ponto de partida ou como referência poemas, contos, novelas e romances famosos, de autores igualmente célebres.
Direto do Estádio do Cupinzeiro, no coração da grande clareira esportiva da floresta, a Rádio Zumbido transmitia aquela que já entrava para a história como a partida mais dramática do Campeonato Interespécies: Insetos contra Aracnídeos.
A inveja não tem fronteiras. Infiltra-se nos bastidores, cochicha nas sombras e alimenta-se da pequenez. Pessoas falam pelas costas e, de forma deletéria, formulam conceitos e preconceitos sem a mínima coragem de sustentar o que dizem frente a frente.
“Salve, tu, Nilo! Que te manifestas nesta terra
E vens dar vida ao Egito!
Misteriosa é a tua saída das trevas
Neste dia em que é celebrada!
Tu crias o trigo, fazes nascer o grão,
Garantindo a prosperidade aos templos.”
A biblioteca de Antônio Mangabeira era portuguesa. Mangabeira era um poeta que mais lia do que versejava. Quem o visse pela primeira vez não o tomaria como tal, isto é, como pessoa ligada a versos e leituras. O arquétipo era o do burocrata altamente responsável, meticuloso em tudo, impondo um respeito que se revelava desde as coisas que fazia ao terno de cor e uso invariáveis. Mas era falando ou, mais propriamente, recitando, que a força do beletrista se impunha. Parecia que a voz, forte e vibrátil, fora a escolhida por Castro Alves para o tom patético de sua tragédia negreira:
Há aproximadamente 7 milhões de anos viveu a espécie Sahelanthropus tchadensis, cujo traço principal foi o início do bipedismo. Em uma curva lenta de desenvolvimento, entre 4 milhões de anos surgiu a espécie Australopithecus afarensis, cujo bipedismo era mais desenvolvido e ainda conservava traços marcadamente primatas. Entre 2 milhões de anos surgiria a espécie do gênero
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Homo, sendo o Homo habilis o primeiro a fabricar ferramentas com pedra lascada. O Homo erectus, há cerca de 1 milhão de anos, domina o fogo e seria o primeiro a migrar entre as estepes africanas para o território da Ásia e da Europa, espalhando-se. Dessa migração, há aproximadamente 400 mil anos, surgiria o Homo neanderthalensis, cujo corpo é mais robusto; começa a fabricar roupas, além de enterrar os mortos, criando grupos ou clãs, normalmente de trinta membros, tendo um princípio de organização social. E, por fim, nos últimos 300 mil anos, aproximadamente, surgiu o Homo sapiens, com linguagem, pensamento e simbolismo artístico mais robustos.
O relato está registrado em obras de dois respeitados escritores. Pereira da Costa o incluiu em um dos volumes dos seus Anais Pernambucanos e Luís da Câmara Cascudo no livro Lendas Brasileiras. Como sempre ocorre no caso de narrativas lendárias, a origem da história é incerta e desconhecida. Ambientada na primeira metade do século 17, no período das invasões holandesas nas antigas Capitanias de Pernambuco e da Paraíba, a desventura amorosa do casal paraibano passou a ser contada,
Logo cedo, na cozinha da casa-grande, Naucete acompanhava Dandara no preparo do almoço. Desde a violência sofrida no galpão da fazenda, a governanta revelou ao marido seu desejo de que a menina morasse com eles. Taitale concordou de imediato, vendo também a oportunidade para que Naucete tivesse mais uma companhia durante as longas viagens que ele fazia trabalho. A partir de então, ela assumiu
Publicado em 1932, Parnaso de Além-Túmulo inaugura a trajetória literária de Chico Xavier e ocupa lugar singular na tradição espiritualista brasileira. A obra, atribuída mediunicamente a poetas falecidos, apresenta-se como uma coletânea de vozes que teriam atravessado o limiar da morte para continuar a cantar. Independentemente da posição do leitor diante da questão mediúnica, o livro se impõe como fenômeno literário e cultural que merece exame atento — tanto pelo seu impacto no imaginário brasileiro quanto pela ousadia de sua proposta estética.
No primeiro dos textos, abordando dois capítulos em Os Miseráveis, tratei da maneira como o autor induz o leitor ao erro, em nome da técnica da narrativa e apelando à catarsis (leia aqui). Neste segundo texto, a minha intenção é tratar de alguns aspectos da tradução do romance de Victor Hugo, para a língua portuguesa. Antes de passar, contudo, ao capítulo específico,